Publicado no Jornal OJE a 14 de Dezembro de 2012

Capitais cada vez mais sem risco

Os investidores portugueses de venture capital e business angels confessam-se rendidos à excelência da inovação e, sobre 2012, fazem o melhor dos balanços quanto a oportunidades de valor. Mas falta conquistar o capital estrangeiro que sobre Portugal continua a saber pouco ou nada.

© Jornal OJE

 

Hoje, para quem aposta em projetos mais ou menos embrionários, a precisarem de mais ou menos capital, não restam dúvidas de que vale a pena investir. Existem, não graças à crise económica mas sim ao talento, cada vez mais oportunidades de altíssima qualidade e que, assim soubesse Portugal "vender-se" e colocar-se no mapa internacional em matéria de tecnologia e engenharia de excelência, a inovação daria o tão desejado passo em frente e passaria a ser incontornável para quem investe e gere avultados fundos.

Por cá, para além dos apoios da tutela, através de programas e medidas de financiamento que, recheados da tão contestada burocracia e morosidade acabam por desmotivar quem as procura, os investidores assumem um papel determinante.

Nesta análise ao setor da inovação e aos investimentos que o consubstanciam, o OJE ouviu investidores de diferentes abordagens. Para uns, o investimento faz mais sentido numa fase de algum desenvolvimento da empresa e que, por isso, apoiam com quantias superiores em passos mais elaborados, como é o caso da gestora de venture capital Espírito Santo Ventures (ES Ventures). Para outros importa apoiar os primeiríssimos passos, a fase "seed", quando o risco e as somas são bem menores, e muitas vezes assumem um "papel divino" aos olhos de quem está a começar e, no bolso, tem apenas sonhos e talento, entrando então em cena os designados business angels, como Santiago Salazar, que lidera os destinos da Busy Angels.

Inovação: "Uma política transversal de apoio a ideias novas ou novas formas de fazer produtos que possam vender-se nos mercados internacionais" - assim define o Ministério da Economia um dos setores que tutela e que assume como um dos mais promissores da economia nacional, atendendo ao seu potencial de exportação e internacionalização - cada vez mais, os pilares estratégicos do desenvolvimento económico para Portugal. E para o mundo.

Corroborando os últimos estudos do World Economic Forum, as áreas de maior potencial para investimento em inovação, em Portugal, para a ES Ventures, são tecnologias de informação (TI), cleantech e saúde (sendo que o segmento específico dos fármacos é excluído por grande parte dos investidores devido ao tempo muito longo de maturação que exigem). Sendo que a Busy Angels também reconhece igual potencial, tendo as suas análises de negócio selecionado oportunidades na área web/marketing tecnológico.

Ano de muitas e boas oportunidades
Para os investidores contactados pelo OJE, o balanço sobre 2012, em matéria de investimentos, é inequivocamente positivo. "Está a ser o ano de maior atividade, maior número de oportunidades e mais projetos de investimento concretizados pela Busy Angels", frisa o CEO, Santiago Salazar. Segundo o responsável, as oportunidades selecionadas contam com promotores que demonstraram ter um "perfil sólido" e "grandes doses de entusiasmo e proatividade". Foram eleitos negócios onde são privilegiadas "a inovação, escalabilidade e internacionalização".

Para a ES Ventures, este exercício está a "correr otimamente", aliás, "como estará a correr para qualquer pessoa que queira investir este ano em Portugal e em qualquer área", sublinha o CEO, Sérvulo Rodrigues. Nesta área, explica, o cenário é tão positivo graças a dois fatores que se prendem com o problema da crise. "Neste negócio de venture capital, o que é relevante é se existe muito dinheiro no sistema, muitos investidores a procurar investir. O que leva a que as boas oportunidades sejam mais concorridas e que o preço a pagar para participar no capital fique mais caro". Acrescenta que, "quando depois se vende a empresa, ou se a coloca em Bolsa, passados uns anos, o ganho vai ser menor porque se pagou caro para entrar. Quando há menos dinheiro no sistema, e falo da generalidade dos investidores, dentro e fora de Portugal, as condições para entrada, visto que há muitas oportunidades, ficam bem melhores, pois podem ser negociadas e, na venda ou entrada em Bolsa, os ganhos vão ser muito melhores". O outro fator, na sua opinião, prende-se com o empreeendedorismo, ou melhor, com o quão empreendedores somos, apesar de os estudos revelarem que somos bastante mais que a média da Europa, porém a "anos luz" de alguns países, como os EUA.

Num estudo recente da Comissão Europeia sobre os índices de inovação de todas as regiões do velho continente, Portugal ficou bastante bem classificado, com Lisboa a figurar no nível máximo, e a zona Centro logo no patamar seguinte. Países como a Espanha, a Itália ou a Grécia não conseguiram ter sequer uma região nesta análise.

Verdadeiramente conhecedora desta realidade, a ES Ventures acredita que, do ponto de vista da inovação e do empreendedorismo, "estamos mesmo a gerar muitas oportunidades". Atualmente, a ES Ventures é confrontada com 10 a 12 oportunidades de investimento diferentes por semana, e há três ou quatro anos que este ritmo se processa. "Estamos a funcionar há 13 anos e foi sempre a subir, o que é bastante bom, e melhor ainda é o facto de cerca de 70% surgirem em Portugal". O investidor faz questão de sublinhar que o referido ritmo não é consequência do desemprego ou da falta de saídas para quem termina o percurso académico, porque lidam essencialmente com empresas que têm cinco ou seis anos de vida, que já desenvolveram os seus produtos e serviços, que se encontram numa fase de precisar de investimento para poderem crescer e que, embora enfrentem dificuldades devido à conjuntura, não procuram financiamentos por debilidades ou problemas.

Cada vez mais, investir em Portugal
A ES Ventures tem tradicionalmente fundos com alguma dimensão, rondando os 90 milhões de euros cada, tendo sido investidos em cerca de 12 oportunidades. Portanto, o valor de investimento, por participada, é significativo e sempre na ordem dos 10 milhões de euros, ou sensivelmente menos. "Começamos por investir um valor mais pequeno e percebemos que quase todas estas empresas precisam de vários investimentos adicionais, à medida que vão ultrapassando determinadas metas no seu desenvolvimento. E só temos de acreditar que ao longo desse desenvolvimento vamos poder investir um montante dessa ordem de grandeza", esclarece Sérvulo Rodrigues. De momento, a ES Ventures tem cerca de 250 milhões de euros sob gestão e investidos, sendo que o montante investido em Portugal rondará os 60%. "Se há alguma tendência é a de, cada vez mais, investir em Portugal, ao contrário do que era a realidade há dez anos, em que as oportunidades eram muito mais escassas", sublinha o responsável.

Fruto de uma parceria com o Instituto Superior Técnico, a empresa convidou investidores e constituiu um fundo para investir em "early stage", mesmo em "seed capital". Empresas jovens, com oportunidades, saídas dos centros de investigação, das universidades.

"Precisamente acreditando que aqui havia, ao contrário do que se afirma, grandes oportunidades e que é possível ganhar dinheiro com "seed capital". E o que fazemos é investir sempre com um business angel em quem tenhamos confiança para nos ajudar a fazer o acompanhamento inicial, visto que quando investimos alocamos também, durante um tempo significativo, um sénior para ajudar na gestão, entre outras vertentes práticas".
Quanto à Busy Angels, investe capitais próprios privados, co-investe com outros investidores privados e venture capitals, e co-investe com capitais públicos como os disponibilizados pelo Programa COMPETE, geridos pela PME Investimentos. Segundo Santiago Salazar, muito em breve, "o investimento total acumulado por todos esses conceitos nas participadas em que temos presença superará os 3 milhões de euros". Refere que "temos atingido notoriedade no setor e mantemos contacto com os agentes que atuam na área do empreendedorismo (universidades, incubadoras, aceleradoras, associações, business angels e venture capitals), fazemos parte da direção da APBA - Associação Portuguesa de Business Angels, e somos requeridos frequentemente como mentores ou júris em contextos de apresentações de projetos. De forma natural, somos abordados por promotores e referenciados por outros players com propostas para participar em investimentos", avança o CEO. Quanto ao perfil mais frequente das suas apostas, são start-ups, projetos em fase inicial, sendo que, "numa primeira aproximação, a probabilidade de nosso envolvimento tem a ver, essencialmente, com a qualidade dos promotores", conclui.

Internacionalização como nos vê quem está lá fora
"A imagem que temos no exterior não é a de um país que desenvolve tecnologia de ponta", afirma convictamente Sérvulo Rodrigues sobre a imagem de Portugal aos olhos dos investidores estrangeiros. Questionado sobre se o país é atrativo para investidores estrangeiros e se, quando vai captar investimento, se depara com obstáculos, Sérvulo Rodrigues sublinha que tem "uma enorme dificuldade" e, para tal, primeiro tem de "vender o país". "Hoje, antes sequer de ter oportunidade de falar dos fundos, tenho de conseguir vender Portugal. E só depois de ultrapassar essa fase é que tenho, eventualmente, o momento para falar nos fundos e da oportunidade que é investir no nosso país", elucida.

E a imagem que Portugal tem, considerando o investidor que "está bem melhor do que já esteve, mérito do Governo e de todos nós", é a de um país que está a trabalhar e a tentar resolver os seus problemas, longe da imagem, segundo o que com ele partilham os investidores estrangeiros, da Grécia ou da Espanha. Porém, os investidores que conhecem o país identificam algumas dificuldades, nomeadamente, o funcionamento da Justiça. "As pessoas não têm ideia da imagem que passamos, do bloqueio que é ter um sistema de Justiça que não funciona. Os investidores sabem que estão a contratualizar, seja o que for, e que se houver um problema não têm forma de, a tempo, fazer valer os seus direitos", frisa. Por outro lado, a questão fiscal também é um problema significativo. "Há um interesse declarado por parte do Estado e do Ministério da Economia em que as coisas funcionem e, depois, na prática, não sabemos porquê, não funciona muito bem; e estes são bloqueios muito grandes à atividade económica, ao funcionamento do país e ao investimento estrangeiro", conclui.

Para Santiago Salazar, a internacionalização é "incontornável no atual paradigma da competição global". Adverte ainda que "todos os projetos de investimento acabam a competir por capitais, recursos, ideias e mercados que são globais, pelo que deve adaptar esse foco e colocá-lo no centro das suas estratégias". Assim sendo, todas as suas participadas já estão a operar fora de Portugal ou têm planos de internacionalização iminentes. "Duas delas já receberam investimento estrangeiro num segundo round e outras duas estão a ser comparticipadas por uma venture capital portuguesa com forte presença internacional", salienta o CEO. Na sua opinião, o "ecossistema" empreendedor português está cada vez mais exposto aos investidores estrangeiros, usufruindo de mais ocasiões para intercâmbios e podendo participar em eventos organizados no país por entidades públicas e privadas. "Há uma clara perceção, por parte dos investidores estrangeiros, sobre o talento dos nossos empreendedores, qualidade e inovação das propostas dos seus projetos. Mas há também uma comparação de preços de entrada, maiores nas suas latitudes. Esta combinação já tem tido como consequência a perda de projetos que preferem radicar-se fora, o que, claramente, não é bom para a nossa economia", sublinha.

Santiago Salazar evidencia ainda que um dos requisitos de maior relevância dos investidores estrangeiros junto dos países que analisam é a "existência de co-investidores locais que acompanhem os projetos". Por isso previne que "essa é a nossa oportunidade e a de todos os business angels que operam no país", e assume a oportunidade (e necessidade) de os business angels se tornarem as tais referências internas que todos os países devem ter, contribuindo para uma maior atratividade no exterior.

Quanto ao que importa fazer e ainda não foi feito para melhorar a imagem de Portugal, Santiago Salazar evidencia que estes processos "deveriam ser impulsionados por todas as instâncias privadas e públicas, fomentando a atração de empreendedores e projetos que se incorporem e enriqueçam o tecido empresarial nacional, com o intercâmbio de ideias e oportunidades no exterior". Para Sérvulo Rodrigues, passará, por exemplo, em todas as iniciativas de promoção de Portugal no exterior haver a preocupação de passar uma imagem de excelência. As empresas escolhidas que estiverem a ser promovidas pelas entidades oficiais ou que têm a marca de Portugal, de qualquer setor, devem ser "claramente as melhores e, se não forem suficientemente boas, infelizmente, não serão apoiadas porque não é o que queremos para o país e para passar aos outros". Se esta triagem for feita, "todo o ecossistema vai beneficiar, e se não o fizermos, todos sairemos prejudicados", conclui.

Importância dos investidores na atual conjuntura
Sobre o papel dos business angels na atual conjuntura, Santiago Salazar não tem dúvidas da "sua pertinência e oportunidade". A ausência do recurso ao crédito tradicional, na sua opinião, "mais grave ainda para novas empresas", intensifica a oportunidade de recurso ao investidor. Para este último, as "dramáticas taxas de desemprego no mercado de trabalho convencional facilitam a tomada de risco profissional para empreender e a perceção do business angels como parceiro inteligente e estimulante".

"Potencialmente tem muito, factualmente tem pouco", assim responde Sérvulo Rodrigues sobre o peso que o venture capital tem na atualidade. Calculando que só a ES Ventures invista entre 5 e 10% dos 10,2% do PIB, avança que "para atingir negócios de uma outra ordem de grandeza teriam de existir umas 15 entidades como nós e não existem". Porém, "se tivéssemos mais dinheiro, hoje investiríamos mais, não tenho a mínima dúvida. Somos confrontados com muitas oportunidades, muito boas, para investir. Podíamos, sem alterar ou relaxar os nossos critérios de exigência, investir mais. Mas só conseguimos alocar o dinheiro que investem em nós e esta é uma altura difícil para convencer investidores a apostar em fundos a médio prazo, porque são a dez anos e têm de estar disponíveis para ter um período de iliquidez grande, em média de cinco ou seis anos".

Como fazem americanos e irlandeses
Na conversa com Sérvulo Rodrigues, os EUA e a Irlanda foram abordados, em traços gerais, como sendo bons exemplos do que se faz neste contexto financeiro, numa lógica do que falta acontecer em Portugal, bem como no que o país já poderia ter feito.

Assim, nos EUA, onde esta indústria existe há mais tempo e onde têm os melhores retornos, em cada empresa com investimento venture capital - sendo que investem em uma de cada 100 analisadas - 35% vão à falência (mais de um terço). E as razões podem ir desde a afinação da tecnologia que foi conseguida à reação negativa dos clientes, ou até mesmo problemas de gestão, ou simplesmente não funcionou e levou mais tempo. E aqui mais tempo é mais dinheiro. Depois, há mais 35% que não dão um retorno significativo, mas também com as quais as perdas são muito reduzidas; e nas restantes 30%, cerca de 10% são as muito boas, as que pagam tudo o resto.

De acordo com um estudo da associação americana de venture capital (National Venture Capital Association - NVCA) realizado a cada dois anos para avaliar o impacto do venture capital na economia, nos EUA é investido todos os anos 0,2% do PIB em venture capital por privados. Há dois índices que são estudados nas empresas que tiveram venture capital na sua génese: quanto vendem e quantas pessoas empregam. No início deste ano, foi revelado que essas empresas empregaram, em 2011, 12,1 milhões de pessoas, representando cerca de 11% do emprego privado, e venderam 2,9 mil milhões de dólares, representando 21% do PIB americano. Há cinco, os números eram 9% do emprego privado e 16% do PIB, confirmando assim que estas empresas estão a gerar postos de trabalho e riqueza.

A Irlanda, na adesão à Comunidade Europeia, negociou parte do pacote dos fundos comunitários para um grande fundo que investia em venture capital no país. Negociação que foi feita numa lógica de matching funds, ou seja, os privados teriam de investir um certo montante e o fundo teria de investir igual valor para que existisse maior capacidade de investimento, e com a condição de o Estado irlandês não poder dizer para onde deveria ir o dinheiro - imposição de Bruxelas para garantir que os privados assegurariam que o dinheiro é bem investido e, portanto, as influências típicas dos Estados eram minimizadas. E isto esteve na base da criação de milhares e milhares de empresas tecnológicas irlandesas, todas elas voltadas para o exterior, e que hoje estão na base do crescimento económico do país.

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