Publicado a 16 de Novembro de 2012 (actualizado a 23 de Novembro)

Conferência 'Mar de Negócios: O nosso mar, transformar o potencial em oportunidades'

Organizada pela TSF e pela Caixa Geral de Depósitos, em parceria com a COTEC Portugal, a Conferência 'Mar de Negócios: o nosso mar, transformar o potencial em oportunidades' realizou-se no dia 15 de Novembro, entre as 9h30 e as 19h00, em Lisboa.

© COTEC Portugal

Num dia dedicado à 'Economia do mar' de Portugal, em que participaram os principais agentes e experts dos vários sectores desta economia, foi apresentado o estudo ‘Blue Growth for Portugal: uma visão empresarial da economia do mar’, desenvolvido por Tiago Pitta e Cunha, com o apoio da COTEC Portugal.

 

© COTEC Portugal

 

Na sessão de abertura, Joaquim Oliveira, Presidente do Grupo Controlinveste, abriu a jornada com a convicção de que «o mar não será a solução para todos os problemas, mas a economia do mar será com certeza parte da solução». Ao que, António Nogueira Leite, Vice-Presidente da CGD, completou: «somos um país marítimo, mas estamos muito longe de ser um país que aproveita as oportunidades do mar», afirmando ainda ser importante criar condições de imediato para ajudar a economia do mar a encontrar formas de crescer de forma coerente e racional.

João Bento, Presidente da Direcção da COTEC Portugal, justificou a associação da COTEC a um tema de extrema importância para o país, essencialmente pelo «desolador (…) resultado que nos caracteriza em matéria de aproveitamento económico do mar» e pelo «gigantesco esforço de inovação (…), indispensável para que, um dia, o imenso potencial do “mar português” comece a ser efectivamente reconhecido como um excepcional conjunto de recursos (…) criando emprego e gerando rendimento». Por uma série de motivos que enunciou, a opção de apoiar a realização do estudo em detrimento da dinamização da criação de um “fundo de investimento”, para financiar projectos de exploração das oportunidades criadas pelo “mar português”, como disse João Bento, foi uma boa decisão da Associação.

Se necessário fosse isolar uma medida do conjunto de medidas de política que o Estudo aponta, João Bento referiu a escolha, sem hesitação, de Tiago Pitta e Cunha: «começar por alterar o elevadíssimo número de disposições regulamentares e burocráticas que limitam a utilização (do “mar português”) por quem pretende explorá-lo economicamente».

Quanto ao futuro, o Presidente da Direcção anunciou que a COTEC irá começar a trabalhar numa segunda frente, de forma segmentada (em cada um dos sectores de actividade que foram identificados no estudo como susceptíveis de virem a aproveitar o potencial oferecido pelo mar), com as empresas identificadas como de maior peso ou importância e que exercem actividade em cada uma dessas áreas. O objectivo será atingir três «grandes preocupações»:

  1. identificar e tentar contrariar os obstáculos que se oponham a esse desenvolvimento;
  2. encontrar mercados;
  3. encontrar financiamento, nomeadamente através da identificação de potenciais investidores.

Na sua intervenção, o Presidente da República, afirmando que «a economia do mar portuguesa, no seu conjunto, é reduzida em volume de negócios e pouco inovadora», assinalou não só a importância desta economia para o desenvolvimento económico de Portugal, bem como as áreas em que se terá de desenvolver e mudar para garantir o seu crescimento sustentável. Identificou como necessárias mudanças ao nível dos quadros legais, institucionais e operacionais que enquadram as actividades marítimas em Portugal, assim como na transformação do conhecimento científico e tecnológico que existe em Portugal na área das ciências do mar que, na sua opinião, tem sido «manifestamente insuficiente», cabendo ao Estado garantir a articulação entre as universidades e as organizações e os agentes desta economia, «que favoreçam uma incorporação mais significativa de conhecimento em produtos e serviços inovadores».Assinalou ainda como muito importante a contribuição dos agentes económicos que, «pelo seu talento, pela sua capacidade financeira e de gestão», podem mudar a face da economia do mar, tornando-a mais competitiva e inovadora.

No final do seu discurso, e no que respeita à inovação, o Presidente da República, referindo-se ao sector dos “Novos usos e recursos do mar”, mencionou investimentos especialmente promissores nas indústrias emergentes como as da biotecnologia marinha e dos bio-recursos marinhos, das tecnologias subaquáticas dos sensores e da robótica submarina, ou das tecnologias da informação e da comunicação aplicadas à economia do mar.

Marcada pelo tom positivo desde o início, Manuel Pinto Abreu, Secretário de Estado do Mar, começou por dizer, na sua intervenção, que «não somos um país de acção proporcional à nossa dimensão marítima, mas estamos determinados para isso». No quadro global, referindo-se à Convenção das Nações Unidas sobre o direito do Mar, aprovada há 30 anos, afirmou que ainda falta dar seguimento a várias linhas de acção do conjunto vasto que esta convenção encerra e que esse seguimento ajudará a economia do mar nacional a desenvolver-se. Assinalou ainda que, para a definição da economia do mar portuguesa, foram muito importantes, no quadro europeu, quer a Política marítima integrada quer a Estratégia europeia para o Mar, e nomeou os cinco eixos que a UE definiu como fundamentais para o horizonte de 2014-2020 em termos de investimento e desenvolvimento desta economia – e que são a energia azul, a aquacultura, o turismo marítimo, os recursos minerais marinhos e a biotecnologia azul. Estes eixos, também fundamentais para a economia do mar portuguesa, serão apoiados por um conjunto de fundos que podem, inclusive, ser conjugados entre si. No final, assegurou que o Estado português está a tentar ser ambicioso nas reformas necessárias para que o mar seja, de facto, uma aposta e desígnio nacional.

© COTEC Portugal

 

Principais conclusões do Estudo 'Blue Growth for Portugal'

Tiago Pitta e Cunha, coordenador do estudo ‘Blue Growth for Portugal: uma visão empresarial da economia do mar’, apresentou as conclusões do estudo que levou a cabo, apoiado pela COTEC Portugal. Na primeira das conclusões, Tiago Pitta e Cunha deixou claro que a economia do mar tem de ser organizada por grandes clusters sectoriais (os seis identificados no relatório), que sigam a lógica das cadeias de valor. Essa organização, como disse, «traria sinergias muito importantes entre as empresas», mas, ao levá-la a cabo, teria de existir, naturalmente, o cuidado de nunca «se perder a noção holística do conjunto desta economia».

A segunda conclusão do estudo é aquela a que o autor chama de “tese dos vasos irrigadores da economia do mar”. Esta “tese” advoga que não se podem descurar alguns sectores ou subsectores da economia do mar porque, ainda que à primeira vista possam parecer “menores”, “alimentam” outros sectores. Um exemplo deles é o caso do sector dos ‘Transportes marítimos’ sem o qual não haverá procura para a ‘Construção naval’ que, por sua vez, garante o mercado para a ‘Engenharia naval’. O mesmo acontece, no caso da ‘Fileira do pescado’, com a ‘Captura’ e a ‘Aquacultura’, que estão visivelmente mais subdesenvolvidos que a ‘Transformação do pescado’ que deles necessita para poder operar. É por isso necessário, como defendeu, «desenvolver as bases». E essas bases são, na sua opinião, os sectores dos ‘Portos e Transportes marítimos’, do ‘Equipamento e da Construção Naval’ e da ‘Fileira do pescado’. Como disse, «é aqui que está a economia do mar em Portugal, onde há mais resultados».

‘O novo paradigma: um país atractivo e empresas competitivas’ foi o que Tiago Pitta e Cunha apresentou como a terceira conclusão do estudo. É necessário que Portugal se torne um país atractivo à implementação de empresas da economia do mar. Para tal, defendeu, é preciso «aumentar a qualidade dos factores de produção e diminuir os seus custos» e isso pode ser feito, como disse, através da «real transferência de conhecimento das universidades para as empresas» e da «fundamental» redução da burocracia da economia do mar. «Nas últimas décadas tivemos um Estado interessado mas complicador e precisamos de um Estado interessado mas facilitador»; «a economia do mar tal como existe, necessita de um impulso externo para se desenvolver; é necessário mais tecnologia, mais inovação», concluiu.

A quarta e última conclusão está relacionada com a análise dos indicadores da economia do mar portuguesa. O volume de negócios de todos os (seis) sectores analisados é insuficiente e mostra que não há uma efectiva economia do mar em Portugal. Nas suas palavras, «a economia do mar existe mais pelas actividades que beneficiam da proximidade do mar do que propriamente pelas actividades que exploram essa economia». Os sectores que apresentam volumes de negócios mais expressivos, com 1.047.051 e 908.022 milhares de euros, respectivamente, são os da ‘Transformação do pescado’ e ‘Comércio por grosso’, resultado da nossa elevada procura interna por peixe (a seguir ao Japão e à Islândia, somos o país do norte industrializado que mais procura pescado).

No final da sua apresentação, Tiago Pitta e Cunha, evidenciou que seria desejável que em Portugal os sectores mais desenvolvidos fossem os dos ‘Transportes marítimos’, do ‘Turismo’ e da ‘Energia’ e não deixou de se regozijar com o desenvolvimento dos últimos anos que os Portos (e administração portuária) e alguns sectores do pescado operaram. Deixou o repto: «esta vai ser uma economia cada vez mais procurada no século XXI, por uma série de motivos: porque se trata de uma fonte de energia segura e sustentável, pela importância do sistema marinho no impacto das alterações climáticas ou pelo consumo de pescado por motivos de saúde» e terminou com uma palavra de esperança dizendo que «o mar pode ser a nova base produtiva de Portugal».

© COTEC Portugal

Da economia portuguesa à economia do mar

Seguiu-se o debate sob o tema ‘Da Economia Portuguesa à Economia do Mar’ em que participaram António Nogueira Leite da CGD, Daniel Bessa, Director-Geral da COTEC e Tiago Pitta e Cunha, moderado por António Perez Metelo.
António Nogueira Leite, apesar de admitir que muito se tem feito nos últimos anos em matéria de divulgação da importância da economia do mar, e que existem novos resistentes e investidores nesta economia, garantiu que «continua a persistir um potencial enorme por explorar». Reconhecendo que as economias que se desenvolvem não são “mono-produtoras”, lamentou que o esforço de captação de investimento estrangeiro tenha vindo a ser feito apenas no sector da Construção, Obras Públicas e Projectos imobiliários. Num mundo cada vez mais global e menos “europeu”, apontou a geografia de Portugal, na rota principal para o Oriente (entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul), central relativamente aos outros países da Europa, como uma grande vantagem e que justifica os investimentos que se venham a fazer na área da economia do mar.

Salientou a burocracia elevada que acompanha um processo de licenciamento em Portugal, que pode demorar «cinco vezes mais que na Noruega» e ainda uma «administração pública descoordenada, muito multiplicada, que penaliza extremamente quem está a investir e quem ainda pensa em investir». Para o Vice-Presidente da CGD, necessitamos de uma «administração pública forte, com referências de pensamento estratégico, em matérias como esta (…) uma administração pública que, como pensamento próprio, estruturado, sem ser tributária dos consultores a que recorre e que têm naturalmente relações próximas com os players dos sectores, faça o que lhe compete».
Abordou ainda a questão da falta de cooperação entre as empresas portuguesas que não têm por hábito, ao contrário das alemãs, espanholas, inglesas ou americanas, escolher empresas nacionais (que já conhecem) para formar consórcios e trabalhar no estrangeiro, dizendo que «em Portugal, as empresas que vão para fora têm “aversão” ao parceiro do lado, que está connosco no mercado local».

Garantiu que continua a haver muito interesse em investir na economia do mar, mas que parecem faltar projectos que se candidatem a esse financiamento. E disse ainda que para que haja desenvolvimento nesta economia tem de haver estratégia, cooperação e visão, e que o seu crescimento implica diferenciação, de produto ou de processo e que, para isso, se precisa de inovação.

Afirmando que a Associação só desenvolve projectos que sejam do interesse dos seus Associados, Daniel Bessa, Director-Geral da COTEC Portugal, considera que as empresas têm, assim, de ser sempre os tractores das suas iniciativas: «nós actuamos quando os Associados vêm ter connosco e querem desenvolver um tema; é com as empresas é que vamos à procura de ajudas». Na sequência da realização do estudo apoiada pela COTEC, Daniel Bessa, referiu-se às três linhas de trabalho, também identificadas pelo Presidente da Direcção, em que a Associação se irá debruçar nesta nova fase da iniciativa, aquela em que, em conjunto com as maiores empresas (ou de maior potencial) dos vários sectores identificados no estudo, irão procurar mercados, investimento e parcerias estratégicas, identificando os obstáculos e tentando combatê-los, com o propósito de desenvolver a economia do mar em Portugal.

Tiago Pitta e Cunha, tomando o exemplo da recuperação extraordinária dos Portos nacionais, feita em 12 anos, em termos de aumento de competitividade e de redução do seu passivo, mostrou que «é possível de ver que há forma de mudar, de evoluir». Referiu ainda que estes sectores que se desenvolveram a contraciclo investiram muito, por exemplo, nas TIC, e que essa evolução foi sempre feita por iniciativa das empresas. Mencionou que o problema da economia do mar em Portugal não é um problema de liquidez mas o que «é necessário é que o Estado construa o contexto necessário para tornar o país mais atractivo». Juntamente com as vantagens comparativas nacionais, continuou, se o País conseguir ser mais atractivo, conseguirá posicionar-se bem nesta economia.

Falou nos progressos assinaláveis realizados na área do conhecimento, mas lamentou que pouco se tivesse produzido em termos de inovação, ou seja, na criação de produtos resultantes desse saber. Para além de abordar a questão da transferência de conhecimento das academias para a indústria, referiu o problema da falta de técnicos especializados em Portugal, «somos o país da Europa que tem o rácio mais baixo entre técnicos e cientistas», disse. Faltam, por isso, continuou, Escolas da área da economia do mar e orientações estratégicas que levem as universidades portuguesas a explorar os conhecimentos desta área. Aludiu ainda a questão da dificuldade dos licenciamentos em Portugal: «temos uma linha de costa de quase 3 000 km mas Portugal é o país da Europa ocidental onde é mais difícil licenciar», o que em muito prejudica a aquacultura, muito pouco explorada em Portugal.

Da parte da tarde tiveram lugar dois painéis que focaram os recursos do mar, em que participaram os principais agentes e experts dos sectores dos ‘Portos e Transportes marítimos’, da ‘Alimentação de origem marinha’, do ‘Lazer e turismo marítimo’ e da ‘Energia offshore’.

Consulte o Programa da Conferência do Mar

Consulte os outputs deste projecto:

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