Publicado a 07 de setembro de 2015

Inovar na cortiça

Um sector tradicional não é sinónimo de falta de inovação ou entrave para inovar. Em Portugal isso aplica-se nos têxteis, no calçado, e mesmo no sector alimentar. E também no caso da cortiça. Exemplo disso é a Corticeira Amorim, maior fabricante mundial de vedantes para vinho e de rolhas, que tem inovado ao longo dos tempos e faz disso aposta para o futuro. Nessa linha, a corticeira assinou com o Banco Europeu de Investimento (BEI) uma linha de financiamento para projetos de inovação que garantem ao grupo Amorim um crédito de 35 milhões de euros, para ser executado em dez anos.

© Amorim

 

Nos anos 60 iniciou um processo do negócio da cortiça e de internacionalização das atividades sob o lema «nem um só mercado, nem um só cliente, nem uma só divisa, nem um só produto». Servindo anualmente 22 mil clientes, dos quais 15 mil na área do vinho, a Corticeira Amorim ultrapassou no ano passado, pela primeira vez, os quatro mil milhões de unidades vendidas. Conta para isso com a unidade de Coruche, onde criou a maior fábrica de rolhas do mundo num espaço equivalente a dez campos de futebol, e com a inovação.

«Mesmo em áreas de atividade onde a inovação seria mais difícil de obter, como é o caso das rolhas, a corticeira Amorim tem conseguido inovar», confirma Carlos de Jesus, Diretor de Marketing e Comunicação. É o caso da primeira rolha que não necessita de saca-rolhas para ser aberta nem de um instrumento especial para a voltar a fechar, lançada em Portugal e internacionalmente no ano passado. Ao fim de quatro anos de pesquisa e desenvolvimento, a Corticeira Amorim e a Norte-Americana Owens-Illinois – líderes mundiais nos sectores de cortiça e embalagens de vidro – surpreenderam o mercado com um conceito inovador chamado Helix que combina uma rolha de cortiça ergonomicamente desenvolvida e uma garrafa de vidro com uma rosca interior no gargalo, dando origem a uma sofisticada solução de elevada performance técnica. Congrega assim todos os benefícios da cortiça e do vidro – qualidade, sustentabilidade e imagem premium – a que se juntam as mais-valias de uma abertura simples e uma fácil reinserção da rolha.

Outras aplicações muito para além da “rolha”
Em Portugal, em parceria com a Quercus, o programa de reciclagem de rolhas usadas é intitulado 'Green Cork' e visa não só a transformação das rolhas usadas noutros produtos, mas também o apoio ao programa 'Floresta Comum', prevendo a plantação de árvores da floresta autóctone nacional, tais como o sobreiro. Ao abrigo desta iniciativa, as rolhas usadas são trituradas e os grânulos daí resultantes são incorporados em novas aplicações, desde revestimentos, produtos de construção ou bens de consumo a toda e qualquer aplicação, com exceção para a rolha de cortiça.

Com efeito, aplicações da cortiça não ficam pelas rolhas e vedantes de vinho. «Também temos outras áreas. Da indústria aeroespacial, ao design, a própria construção pesada (barragens ou pistas de aeroportos) e cada vez mais inovamos olhando e aproveitando a própria estrutura celular da cortiça», indica o Diretor de Marketing e Comunicação. Presente em mais de 100 países, a empresa é uma das maiores embaixadoras portuguesas quando o tema são as exportações, mas os responsáveis acreditam que ainda há espaço para crescer.

Outro dos mercados de nicho da corticeira é o turismo industrial. Ainda que seja a vertente menos conhecida do turismo pode dar novos estímulos a algumas regiões em Portugal e já tem expressão. A Amorim recebe cada vez mais turistas interessados em conhecer o processo de fabrico da cortiça. Em 2014 foram cerca de 700, vindos de diversos países, mas com uma predominância dos Estados Unidos e também de França.

© Amorim

 

Os investimentos em IDI no mundo da cortiça
Nos últimos 15 anos, a Amorim investiu em investigação e desenvolvimento, bem como em inovação (IDI) e o resultado é um portefólio de produtos e soluções de elevado valor acrescentado, antecipando as tendências do mercado e superando expetativas de algumas das mais exigentes indústrias a nível mundial.

A sua assinatura está nas rolhas dos melhores vinhos, nos mais improváveis objetos do quotidiano, artigos de desporto olímpico, absorventes de óleos e solventes orgânicos, obras de referência mundial, projetos rodoviários e ferroviários de última geração e até em naves espaciais. No panorama da criatividade contemporânea, desafia designers, cientistas e arquitetos a explorarem as infinitas potencialidades da cortiça.

A atividade da corticeira «procura ser um exemplo único de economia verde, assente num equilíbrio entre as questões económicas, sociais e ambientais». Preocupações constantes «pela adoção e reforço de práticas de desenvolvimento sustentável» fazem da empresa «uma das mais sustentáveis do Mundo».

É certo que trabalhar com uma matéria-prima muito especial, com características absolutamente únicas, um produto que vem da floresta, e que não obriga a cortar árvores mas antes a zelar pelo desenvolvimento florestal, são vantagens. Mas tudo o resto é resultado de trabalho e de perseverança e, sobretudo, de muito investimento em inovação.

A corticeira assinou com o Banco Europeu de Investimento (BEI) uma linha de financiamento para projetos de inovação que garantem ao grupo Amorim um crédito de 35 milhões de euros, para ser executado em dez anos. «Estamos a falar de co-financiamento. Este contrato obriga a investimentos na ordem dos 70 milhões», esclarece o Presidente do Conselho de Administração, António Rios Amorim.

Os fundos do BEI servirão para financiar projetos de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em praticamente todas as unidades de negócio da Corticeira Amorim: não só no segmento das rolhas, o mais importante de todos, mas também nos revestimentos, nos aglomerados e compósitos, e nas matérias-primas. E apesar de a aposta na inovação ser uma realidade no Grupo há muitos anos, a Administração do Grupo cedo entendeu que as ideias mais disruptivas, mais “fora da caixa”, poderiam vir de pessoas externas à empresa e ao seu mercado-alvo.

Sendo o segmento das rolhas de cortiça um dos mais importantes para o grupo (pesa 63% do volume de negócios) a Amorim é exigente na inovação desta área. «Quando falamos de uma rolha, são os requisitos e a performance expectável do mercado que nos faz ter uma determinada vontade de melhorar a performance para provar que a rolha ainda é o melhor vedante. É o mercado que o exige e é a nossa ambição de querer responder sempre com vantagem a outros materiais como o plástico ou o alumínio, e conhecendo como conhecemos o produto vinho e sabendo a importância que uma rolha de cortiça tem, não descuramos esta área», esclarece o Presidente da empresa.

© Amorim

 

Nas outras áreas de negócio, como os revestimentos, o que a empresa procura é a diferenciação. «As pessoas querem ter as características da cortiça, ao nível do isolamento, do conforto térmico e acústico, mas não vão querer um pavimento que não gostam, ou que não tenha dinheiro para o pagar. Temos de jogar com isso tudo, e pensar em fatores diferenciadores. Os alemães usam-no no quarto das crianças, mas nós queremos chegar a outras zonas da casa. Se conseguirmos características como ser à prova de água já conseguimos entrar nas casas de banho e nas cozinhas, que se calhar são as zonas da casa onde os alemães mais investem», declara.

Ou então, procura novos materiais, separando a cortiça nos seus componentes químicos, moleculares, para os purificar e encontrar, por exemplo, substâncias para a indústria farmacêutica ou cosmética. «Se conseguirmos funcionalizar a cortiça com outros materiais compósitos, podemos reforçar características fantásticas que a cortiça tem e levar tudo isto para uma escala diferente», afirma também António Rios Amorim.

Foi a pensar em todas estas possibilidades que o Grupo criou em 2014 a Amorim Cork Ventures, um acelerador de ideias com o objetivo assumido de fomentar a criação e o desenvolvimento de novos produtos e negócios com cortiça orientados fundamentalmente para os mercados externos. Logo no primeiro ano recebeu cerca de 100 propostas, não só de Portugal, mas também da Austrália, Itália, Holanda e Reino Unido.

Investir em negócios de inovação na cortiça
A primeira conclusão que o grupo Amorim retirou deste convite a empreendedores e investigadores que estivessem a trabalhar com a cortiça, foi a de que existem muitas ideias, mas poucos projetos. «As pessoas têm de passar da ideia ao produto, ou serviço. O que faz a Amorim Cork Ventures é ajudar a passar do projeto ao negócio. Vamos fazer incubação, dar formação, vamos ocupar as partes menos criativas do desenvolvimento, como as partes administrativas, contabilísticas, etc., para que a pessoa se possa concentrar na criação da ideia», explica o gestor.

No modelo de captação da Amorim Cork Ventures foi definido que será feita anualmente uma “chamada” a Norte e outra em Lisboa, evitando assim que se percam oportunidades por restrições geográficas relacionadas com a localização dos programas de capacitação. A “chamada” a Norte, lançada em Fevereiro, recebeu mais de 40 candidaturas, tendo 12 delas passado para a fase de capacitação. «Foram as que nós achámos que eram boas ideias, mas que ainda não tinham negócio. Uns vão ficar pelo caminho, e outros vão chegar à fase do negócio, e quem o vai liderar é o empreendedor. Nós, Amorim, somos o sócio minoritário. Podemos ser maioritário um dia mas nunca numa fase inicial», afirma o Rios Amorim.

Fontes: Diário Económico e Público

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