Publicado a 16 de julho de 2015

«Nunca vi tanto dinheiro para ventures disponível como nos últimos anos em Portugal»

António Murta, Managing Partner da Pathena e Membro da Direção da COTEC Portugal, recusa a ideia de que o financiamento é um entrave às tecnológicas nacionais. Em entrevista à revista WE’BIZ de julho de 2015, Murta afirmou que o problema está, na maioria dos casos, na sustentabilidade dos negócios.

© WE'BIZ

 

António Murta co-fundou a Pathena em 2013, sociedade de investimentos que se distingue por ser do Norte – nasceu no Porto – e por ter sido criada com o propósito de investir 50 milhões de euros em TI. O investidor diz que nunca, como nos últimos anos, houve «tanto dinheiro para ventures disponível» no nosso país. O também membro do Conselho Geral da Universidade do Minho alerta que o problema está nos próprios negócios, sublinhando que as empresas não podem ser startups durante 10 anos. Os investidores procuram projetos de crescimento rápido e o local onde estes se encontram é importante, mas não determinante: António Murta defende que não há sítios bons ou maus e que «o dinheiro viaja para onde estão as melhores ideias».


A Comissão Europeia anunciou a intenção de criar um mercado único digital na UE. Que impacto pensa que esta medida terá no setor europeu das Tecnologias de Informação, Comunicação e Eletrónica (TICE) e no crescimento económico da Europa?
Este conjunto de medidas que agora foi lançado em pacotes e que chamaram de mercado único digital da Europa já está em reparação há algum tempo. Portanto, se quiser, apesar de serem lideradas por esta comissão, decorrem naturalmente do trabalho da comissão anterior. Penso que estas medidas terão um forte impacto positivo na aceleração da digitalização da Europa – ou “digitização” da Europa, se é possível usar a expressão – na sua competitividade e também, para todos os efeitos, na própria competição (…).


O impacto do mercado único digital pode ser comprometido pelo gap entre a oferta e a procura de emprego no setor das TICE, ou seja, pela falta de profissionais qualificados nesta área ao nível europeu?
De uma forma curta e clara: acho que pode e temos de trabalhar para que isso não aconteça. Mas acho que pode.


E em que sentido temos de trabalhar? Como é que a Europa pode minorar esta escassez de profissionais qualificados na área das tecnologias?
Eu vejo, pelo menos, três maneiras de minorar o gap, três fórmulas. A primeira tem a ver com a atração de talento para o domínio digital – e eu diria que neste domínio em particular temos de corrigir o enviesamento masculino/feminino no emprego digital. O setor tem sido incapaz de atrair tanto o domínio feminino como o domínio masculino. Portanto, atrair talento, em particular no feminino.

Segundo: uma deslocalização do investimento para onde o talento está. Aqui na Europa temos um problema: nós temos talento em determinadas geografias, mas as necessidades maiores digitais não são necessariamente nessas geografias. Há duas formas de tratar disso: uma é emigrando e a outra é deslocalizando o investimento para garantir que no fundo se crie investimento digital onde o talento existe. Isto é uma oportunidade para Portugal e para o Sul da Europa, uma oportunidade que devemos aproveitar. A terceira fórmula que eu diria que também é necessária em face do gap – que é tão grande, tão grande, tão grande, que todas as fórmulas devem ser usadas – é “retreinando” pessoas. E daqui vem o reconhecimento de que, infelizmente, o mercado de trabalho não está balanceado e que temos áreas, por exemplo, de engenharia – que são próximas do digital – que não têm empregabilidade e que com algum “retreino”, alguma reeducação, com facilidade, se passa um engenheiro mecânico, por exemplo, ou engenheiro químico a engenheiro digital ou engenheiro de sistemas (…).


Portugal é um país com apetência pelas tecnologias, mas o setor das TICE ainda não ocupa uma posição central na nossa economia. O que falta fazer para que isso aconteça?
Talvez pensasse num conjunto de coisas. O leque de medidas pode ser alargado. Eu acho que a engenharia digital portuguesa ainda é um segredo bem guardado. Eu diria que ainda não deixámos, infelizmente, a condição de ser um segredo. A primeira fórmula de garantir que as TICE são mais centrais é ainda credibilizando a engenharia digital portuguesa (…).

Segundo, se temos de corrigir alguma coisa é metendo na cabeça que o mercado local tem de facto uma limitação e investindo menos em serviços e mais em propriedade intelectual, em produto. Porquê? Apenas porque os produtos têm um maior efeito multiplicador. Os serviços têm sempre uma abordagem limitada na multiplicação de valor.

Terceira medida de que me recordo é que nós próprios temos de ser menos – desculpe-me a expressão – “saloios” e temos de abrir o capital das empresas a estrangeiros. Isto para crescer mais rápido nos mercados em que podemos ter bom acesso.

A última coisa que queria referir – e talvez aquela que pode ter um efeito mais direto e mais imediato – é garantindo que uma, duas, três empresas portuguesas tenham forte expressão digital no mundo. Já temos a primeira: é claramente a Farfetch. Mas deveríamos ter duas ou três. Resta-me aqui referir a Estónia. A Estónia antes do Skype não era conhecida. É um país pequeno, mais pequeno do que Portugal. Portanto, nós precisamos do nosso momento Skype (…).


O setor das TICE pode, de facto, tornar-se estratégico para a economia portuguesa?
Correndo o risco de ser polémico, porque sou um investidor de TICE, eu acho que as TICE, honestamente, não são, nem serão, estratégicas, alguma vez, na economia portuguesa. Mas veja bem: eu não estou preocupado com isso. Porque eu acho que o digital está a penetrar de tal forma em todas as indústrias que já não faz sentido falar de digital enquanto setor. Todos os setores são digitais.

Eu vejo absoluta necessidade de, a prazo, da mesma maneira que se estuda matemática no secundário, se estude disciplinas digitais, porque o digital será tão versátil e tão horizontal quanto a matemática. Nesse sentido, TICE não será um setor, será um subdomínio de todos os setores. Portanto, eu vejo como muito mais importante que Portugal utilize o digital como ferramenta de competitividade das empresas do que propriamente estou à espera que Portugal tenha uma preponderância no digital equivalente à de Taiwan ou à dos Estados Unidos. Para mim, estratégico, estratégico é garantir que as empresas portuguesas utilizem o digital como arma de competitividade (…).


A IMPORTÂNCIA DA “MUNDIVIDÊNCIA” NA AFIRMAÇÃO GLOBAL
Dada a exiguidade do nosso mercado doméstico, a internacionalização é certamente o caminho a percorrer pelas empresas de TICE portuguesas. Por isso pergunto-lhe: as nossas “tecnológicas” são competitivas nos mercados externos?
Eu diria inequivocamente que sim, que as nossas tecnológicas são competitivas. Encontro exemplos excelentes e não vejo razões nenhumas para, de alguma forma, temer pela competitividade das tecnológicas portuguesas. Deixe-me dar-lhe exemplos, porque eles são abundantes: Vision-Box, Vortal, I2S, WeDo, Bosch Car Multimedia (que exporta 600 milhões de tecnologia digital de automóvel a partir de Portugal). Todos são excelentes exemplos de tecnologia portuguesa que pode e deve afirmar-se no mundo, porque é competitiva, e, líder até, à escala mundial. Não nos falta, portanto, engenharia. Somos muito bons em engenharia. O que é que nos falta? Falta-nos ainda inscrição no mundo. O que é natural para uma empresa digital é que Portugal represente 4-5% das vendas. Ou seja, devemos meter na cabeça que o mundo é a nossa casa. O facto de partirmos deste país não quer dizer mais nada, só quer dizer que partimos daqui. É nisso que temos de trabalhar: na nossa inscrição no mundo e na nossa mundividência. É isso que nos falta, não é a engenharia.


Em que mercados externos devem apostar? E que medidas devem tomar nas suas estratégias de internacionalização?
Acho que aqui depende muito de caso para caso, de empresa para empresa. O balanço que eu lhe propunha fazer é que deve ser sempre sopesado duas coisas. Uma é, de facto, a nossa proximidade cultural e de língua. Sem dúvida que a língua é um facilitador neste processo dito de exportação ou dito de crescimento internacional. Mas, por outro lado, não podemos esquecer a dimensão dos mercados e a sua competitividade. A capacidade de aprender com os mercados também é outro fator (…).


O que é que o país pode fazer para promover o crescimento e a competitividade do empreendedorismo de base tecnológica?
Eu começo por dizer que há muita coisa que está bem feita e que só deve continuar. Silicon Valley demorou muitos anos a fazer. Não aconteceu num ano. Aconteceu ao longo de 10, 20, 30 anos. Portanto, temos de continuar com o que a Portugal Ventures, o Instituto Pedro Nunes, a Startup Lisboa, e a Startup Braga estão a fazer. O que está a ser feito está bem feito, não pode é parar. Por outro lado, se eu tivesse de formular um desejo que, de alguma maneira, se transformasse num plano, teríamos de garantir “exits” mais visíveis e mais expressivas e não ter só “funding financial rounds” (…). Digo-lhe também que, do lado das universidades, e apesar de já haver um começo de trabalho, ainda há muito a fazer. Se eu pensasse nas quatro, cinco, universidades de excelência, de topo de Portugal, eu diria que é preciso que a transferência de conhecimento e a transferência de tecnologia passem a ser centrais. Elas não só não são centrais como, nalguns casos, são desconfortavelmente laterais. Representam algo que é lateral, que é um apêndice, um apêndice pobre da oferta universitária. Eu não me reconheço nisso e isso não corresponde, minimamente, à imagem da universidade mundial moderna.


É possível um Silicon Valley português, por exemplo entre Porto e Braga?
Eu normalmente brinco com isso e falo sempre de “Silicon Balley” (…). Brinco com isso porque é sabido que as pessoas de Braga, como eu, trocam os “v’s” pelos “b’s”. Obviamente que é possível fazer isso. É possível fazer isso com tempo. Silicon Valley é dificilmente repetível. Acontece porque há uma concentração inusitada de talento num domínio geográfico muito pequeno e que tem extraordinárias universidades. Sem Stanford não existia Silicon Valley. Eu acho que no caminho que estamos a fazer, nomeadamente o Norte – entre a Universidade do Porto e a Universidade do Minho, e também, porque não referir, a Universidade de Aveiro –, há muito bom trabalho, nos últimos anos, que pode, para todos os efeitos, degenerar em algo como isto.

Agora, estas coisas levam tempo e precisam de continuidade. Deixe-me dar-lhe exemplos recentes de coisas que me motivam e que me dão esperança de que o que estou a dizer não é meramente lunático ou “wishful thinking”. A Bosch Car Multimedia exporta, de há muitos anos, tecnologia de Braga para o mundo. No entanto, nunca como nos últimos anos, teve tantas tarefas de alto valor acrescentado e de alto nível de conceção concentradas em Braga. (…) Algo mais disruptivo e mais invisível: uma empresa chamada BitReserve. A BitReserve, de raiz americana, é uma reserva federal de bitcoins, que alavanca na massa monetária de bitcoins criada já no mundo. (…) Quando você vê uma empresa como a BitReserve, que tem ambições marcadamente mundiais desde o dia 1, a estar na Ásia, na Califórnia, na Europa do Norte, Europa fortemente desenvolvida, e a escolher Braga como um dos seus pólos, eu volto a dizer: isto não acontece por acaso. Acontece porque há talento em engenharia, que é reconhecido. Isto diz-me que não há o sítio errado do mundo (…).


Quais são hoje as áreas de negócio no setor das TICE com maiores potencialidades económicas e por isso com melhores oportunidades de investimento?
Eu preferia não responder, porque este é um domínio de trabalho e eu não quero partilhar demasiado nesse domínio. Prefiro preservar isso. Mas, por exemplo, na interseção entre saúde, “farma” e IT, nos próximos anos, vão aparecer oportunidades extraordinárias. Acho que Portugal, neste espaço, tem oportunidades (…).


O “FAST GROWTH” E A CONQUISTA DE INVESTIDORES
Um dos maiores problemas do empreendedorismo português de base tecnológica parece ser o financiamento, uma vez que, por um lado, o crédito bancário é escasso e caro e, por outro, há muitos negócios intensivos em capital, nomeadamente na área da biotecnologia. Como podem os empreendedores portugueses contornar estes problemas de financiamento?
Devo dizer que não concordo que haja dificuldades de financiamento em Portugal neste domínio. Acho que as dificuldades que existem são as dificuldades comuns, de todos os mercados e de todos os espaços. Nunca vi tanto dinheiro para ventures disponível como nos últimos anos em Portugal. Nunca vi. O que há é dificuldades de sustentabilidade, que são diferentes das dificuldades de financiamento. Quando usamos um avião, o avião tem uma pista para partir. Mas a pista é finita. Se o avião não descolar no fim da pista, nós “crashamos”. As empresas têm de perceber que o dinheiro é finito e não pode haver startups que são startups 10 anos.

Uma startup ou passa a “scaleup” e, de alguma maneira, cresceu e engordou, pela positiva, ou não pode ficar startup toda a vida. Não há startups com 10 anos. Portanto, quando se fala em dificuldades de financiamento de uma startup com 10 anos, isso não são dificuldades de financiamento. É uma empresa que, se calhar, deve fechar (…).


Fonte: Entrevista WE’BIZ (julho de 2015)

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