Publicado a 05 de junho de 2015

O desafio da inovação "jugaad": fazer melhor com menos

A recuperar de um contexto de crise financeira e estagnação económica, os países desenvolvidos são cada vez mais chamados a adotar práticas de "jugaad innovation", um conceito que implica práticas de inovação frugais, flexíveis e inclusivas, que foi inicialmente aplicado em economias emergentes onde a procura de uma nova classe média pressionou as empresas a criar produtos o mais simples possíveis, com um custo mínimo.

A palavra "jugaad", de origem Hindi-Urdu, significa uma improvisação inteligente, um contorno ou uma solução alternativa que devem ser utilizados de forma criativa devido à falta de recursos. Um exemplo de inovação "jugaad" é o Miticool, uma espécie de frigorífico de barro que foi inventado em 2001 pelo empreendedor indiano Mansukhbhai Prajapati. Na sequência de um terremoto e de consequentes faltas de energia no estado de Gujarat na Índia, Prajapati baseou-se nas competências da família (olaria) para criar um frigorífico de barro que não necessita de eletricidade para funcionar.

Nos últimos anos, diversos livros discorreram sobre a temática da inovação frugal, incluindo "Reverse Innovation" de Vijay Govindarajan e Chris Trimble, "Jugaad Innovation" de Navi Radjou, Jaideep Prabhu e Simone Ahua e, mais recentemente, "Frugal Innovation", lançado em fevereiro de 2015 por Navi Radjou e Jaideep Prabhu.

De acordo com estes autores, a inovação "jugaad" caracteriza-se por três elementos: a frugalidade no uso de recursos, a flexibilidade para criar e buscar soluções imprevistas, e a inclusividade na distribuição de soluções baratas. Assim, uma inovação "jugaad" busca oportunidade na adversidade e faz mais com menos, otimizando os recursos para os tornar mais eficientes, como por exemplo utilizando recursos que já estão disponíveis e de baixo custo.

Por outro lado, requer que as empresas pensem e ajam de forma flexível, pois a inovação não está necessariamente na criação de novos produtos, podendo estar também nos novos usos que os consumidores dão os produtos. Para citar um exemplo, na China rural adotaram-se as máquinas de lavar a roupa Haier para lavar batatas. Adicionalmente, a inovação "jugaad" requer simplicidade. Os produtos complexos requerem demasiado tempo e atenção dos consumidores e geralmente os consumidores utilizam apenas parte das suas funcionalidades.

Por fim, a inovação "jugaad" tem na sua génese o conceito de inclusão: ela tem em conta consumidores de baixo rendimento e procura criar empatia com os consumidores, estimulando a partilha de recursos e a co-criação. Em resumo, inovação frugal não é apenas fazer mais com menos, mas também fazer melhor com menos.


A inovação frugal nos países desenvolvidos
De acordo com o livro "Frugal Innovation", de Navi Radjou e Jaideep Prabhu, inicialmente a inovação frugal começou a ser aplicada nos países desenvolvidos por algumas multinacionais do Ocidente que pretendiam vender produtos nos países em desenvolvimento, necessitando para tal de fabricar produtos simples e baratos. Alguns exemplos são a General Electric, que fabrica produtos médicos com preços acessíveis na Índia e na China ou a Renault-Nissan, que tem uma fábrica para produção de carros com preços populares na Índia.

No entanto, a crise financeira que atingiu os países desenvolvidos, resultando na estagnação da renda das famílias e numa elevada taxa de desemprego, tornou os conceitos de inovação frugal atuais também nos países ocidentais. Foi o caso da francesa Renault, que em 2004 lançou o modelo Logan com preço competitivo. Embora estivesse essencialmente destinado aos mercados emergentes, o carro registou enorme sucesso na Europa Ocidental, onde a recessão levou os consumidores a procurar produtos a preços acessíveis. Na sequência desta experiência, a Renault, em parceria com a Nissan, iniciou o desenvolvimento de uma nova linha de veículos de nível de entrada sob a marca Dacia, que conhece atualmente um forte crescimento na Europa.

Noutros setores, a Internet, as tecnologias móveis e as redes sociais estão a desafiar as cadeias de valor verticalmente integradas das grandes empresas, estimulando as plataformas "do-it-yourself" e a economia frugal. É o caso de empresas como a Uber, para partilha de carro, que já está avaliada em mais de 40 mil milhões de dólares, ou do serviço se alojamento partilhado "peer-to-peer" Airbnb, que aluga mais quartos por ano do que toda a cadeia de hotéis Hilton.
Na opinião dos autores do livro "Frugal Innovation" estas mudanças estão a impulsionar o "maker movement" (movimento de criadores), que se baseia numa legião de engenhosos que, coletivamente, podem criar produtos de forma mais rápida, mais eficiente e mais barata do que as grandes empresas. E, para sobreviverem neste contexto de mudança, as empresas estabelecidas terão que se reinventar e converter em empresas frugais que integrem os "pró-consumidores" digitalmente capacitados e atendam às necessidades do mercado de uma forma mais eficiente em termos ambientais e de custos.


Fontes: Jornal de Negócios, Opinião e Notícia e Tribuna da Baía

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