Portugal (bio)tecnológico

As tecnologias de informação e a biotecnologia são os sectores que mais estimulam os jovens empreendedores portugueses. Dos 20 projectos seleccionados para a segunda fase do Concurso Nacional de Empreendedorismo promovido pela Caixa Geral de Depósitos e pela Universidade Nova de Lisboa, 13 pertencem a estas duas áreas. As melhores ideias acabam de ser premiadas. O vencedor do prémio de 25 mil euros é conhecido em Junho.

POR LUIS BATISTA GONÇALVES

© UNL

Portugal demorou tempo a despertar para a biotecnologia, mas ela está aí e cada vez mais em força. Dos 20 projectos seleccionados para a segunda fase da primeira edição do Concurso Nacional de Empreendedorismo promovido pela Caixa Geral de Depósitos e pela Universidade Nova de Lisboa, patrocinado pelo PortalExecutivo, seis estão ligados a este sector e, das cinco melhores ideias distinguidas na primeira fase, duas pretendem tirar partido dos microorganismos orgânicos para criar um negócio. É o caso da BioAlvo, que aposta na descoberta e desenvolvimento das drogas biofarmacêuticas para ganhar dinheiro, e da MagBiosense, que volta a ser distinguida pela criação de um aparelho que detecta microorganismos patogénicos na carne e nos seus derivados, um sistema que utiliza bio-sensores e que arrecadou, ex-aequo, o primeiro prémio do concurso de ideias, promovido no âmbito do programa Green-Wheel do Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento e do curso de empreendedorismo VECTORe 2004 do IST.

 

À frente da biotecnologia, só mesmo o sector das tecnologias de informação, ao qual pertencem sete dos 20 projectos escolhidos e dois dos cinco melhores distinguidos pelo júri do concurso. Entre esses está o da SkyData, que concebeu um software para armazenar e organizar dados sobre as preferências de clientes das companhias áreas e da FastTrack, que desenvolveu um conjunto de soluções integradas de reconhecimento biométrico e de logística. "Este prémio representa o início do jogo verdadeiramente dito e é, no fundo, o culminar de uma série de interesses e de projectos que temos vindo a estruturar desde há bastante tempo", disse ao PortalExecutivo, no final da cerimónia de entrega, que teve lugar da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, na passada terça-feira, dia 3 de Maio, Nelson Vaz, um dos seis empreendedores que integra a FastTrack.

Da lista das cinco melhores ideias premiadas faz também parte o projecto Cogumelos de Alcobaça, que aposta numa nova forma de produzir cogumelos e que, em Novembro do ano passado, já venceu o troféu de "Ideia Inovadora". A distinção foi obtida no âmbito dos prémios INOVALEIRIA 2004, um evento promovido pela Delegação de Leiria da Associação Nacional dos Jovens Empresários (ANJE). João José Inácio Silva, que tem dado a cara pelo projecto, passa assim para a segunda fase do concurso, que será marcada pela elaboração de um plano de negócios, um processo que contará com o acompanhamento das universidades a que os alunos seleccionados pertencem, de um grupo de especialistas da COTEC e de um grupo de apoio da Ordem dos Economistas. Essa segunda fase decorre até Junho, altura que os projectos serão apresentados publicamente, numa sessão que, à semelhança do que aconteceu com o Projecto Empreendedor da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias contará com a presença de potenciais investidores. O vencedor receberá um prémio de 25 mil euros e poderá ver a sua ideia financiada pela Caixa Geral de Depósitos.


Tecnologia deve ser vendida antes de ser patenteada
A entrega de prémios aos cinco apurados para a final do Concurso Nacional de Empreendedorismo teve lugar durante a Conferência "Transferência de Tecnologia como base para o Empreendedorismo", uma iniciativa que contou com a presença de Gilles Capart. O presidente do conselho executivo da Incubadora de Louvain-la-Neuve, que também preside ao conselho de administração da Proton, a rede europeia para a inovação com base na investigação pública, apelou a uma maior colaboração entre as universidades e as empresas. "Cerca de 75 por cento das patentes são descobertas no sector público. Mas muitas dessas invenções estão ainda numa fase de early-stage e precisam de ser melhoradas para se tornarem comercialmente atractivas", sublinhou. "Hoje em dia, a vantagem competitiva está no modelo de negócios e na estratégia, porque a tecnologia está em todo o lado. Atingir o êxito só a partir da tecnologia será cada vez mais impossível", alertou.

Trabalhar com a indústria é, na opinião de Gilles Capart, uma das "duas maneiras" que as universidades têm de acelerar a transferência da tecnologia que desenvolvem. A outra passa pelo desenvolvimento de novos modelos de negócio e pela criação de "spin-outs", novas empresas constituídas por um grupo maior para explorar novos desenvolvimentos e oportunidades de mercado. Para isso, estes estabelecimentos devem procurar "atrair e reter os melhores cientistas e estudantes", por forma a criar "equipas estáveis" e "participar no desenvolvimento económico" do País. "Se falharmos nisto, não nos resta nada a não ser mostrar as nossas pirâmides, que neste caso são catedrais, aos turistas chineses", ironizou o especialista que, confrontado com uma pergunta da audiência sobre a melhor altura para vender a tecnologia desenvolvida, não demorou tempo a responder: "Deve fazê-lo o mais depressa possível, sem esperar que essa seja patenteada, porque há casos em que esse processo pode demorar 10 anos".

Esta é também a opinião de Jeff Skinner, director do Technology Transfer Office da University College of London. "O enfoque está na tecnologia e não na patente. Não se deve esperar", afirmou o responsável por um departamento que, no último ano, viu serem gastos 700 mil euros em transferência tecnológica. No Reino Unido, o governo de Tony Blair tem vindo a dinamizar este processo, apoiando-o financeiramente, mas não se tem limitado a dar o dinheiro, como acontece em relação a muitos dos subsídios atribuídos em Portugal. "Tem acompanhado e medido o desenvolvimento [dessas acções] para não criar incentivos perversos, porque é muito fácil lá criar spin-outs", referiu.


Portugal não tem propriedade intelectual... nem uma cultura que apoie o falhanço!
Apesar das universidades estarem a assumir um maior protagonismo na transferência de tecnologia e na criação de novas empresas, há apenas uma meia dúzia de anos não era assim. "No início de 1997, quando constituímos a nossa empresa, o conhecimento das actividades académicas não era transferível para o tecido empresarial português. Não havia actividade empresarial capaz de o absorver e utilizar", lamentou, no início do segundo painel da conferência, Epifânio da Franca.

Falando para uma plateia maioritariamente constituída por estudantes universitários, o fundador da ChipIdea, uma das empresas portuguesas que mais prémios tem recebido ultimamente, desdobrou-se em conselhos. "É preciso ter consciência da inconsciência que representa a decisão de empreender e, muito embora se possa planear, o importante não é o plano. É a capacidade de o ajustar tantas vezes quantas necessárias. E não se pode voltar para trás, nem que isso signifique falhanço. Temos é que ter à nossa volta uma cultura que apoie o falhanço e que ajude as empresas a recomeçar e isso é uma coisa que não existe neste país", criticou o empresário que, no ano passado, facturou mais de 13 milhões de euros.

A falta de uma cultura que apoie o falhanço não é, no entanto, a única lacuna. "Em Portugal, praticamente não há propriedade intelectual e as oportunidades que se colocam acabam por ser muito limitadas", lamentou Paulo Ribeiro, um dos sócios da Change Partners, uma sociedade gestora de fundos de capital de risco, que aconselhou as universidades e as empresas a investir em "tecnologias, produtos ou modelos de negócio que sejam verdadeiramente novos". Os níveis de capacidade de inovação per capita são de tal maneira baixos que "encontrar oportunidades não é fácil", sobretudo quando "a maioria das situações que nos aparecem em early stage estão associadas a pessoas que [estão a sair agora das universidades e] nunca tiveram qualquer experiência na vida empresarial e com dificuldades em desenvolver um projecto bem concebido. Há muitas situações de pessoas que não sabem o que está a ser feito noutros países e julgam que são as únicas a ter uma determinada ideia", refere.


Patentes portuguesas ainda são mal geridas
Em Portugal, a par da biotecnologia, as tecnologias da informação são uma das áreas que tem vindo a registar um forte crescimento. "O software vai criar novas oportunidades de negócio, mesmo fora da indústria de software. Nos próximos 20 anos, estima-se que a mudança tecnológica acelere e esta cresça um milhão de vezes. Existirão milhares de ideias por explorar e muitas ainda nem sequer estão pensadas", acredita João Paulo Girbal, director-geral da Microsoft Portugal, outra das entidades que patrocinaram esta conferência.

Para aproveitar muito do potencial que sai das universidades, a empresa de Bill Gates investe perto de 15 por cento das suas verbas destinadas à investigação directamente nestes estabelecimentos de ensino, mas os empreendedores que se lançam nos negócios após terminarem os seus cursos têm ainda à disposição ferramentas como o programa Microsoft Empower e o Eco-Sistema Microsoft. Em fase de reconversão, após sete edições, está também o concurso nacional de software que a filial portuguesa da companhia promove. "Vamos relançá-lo muito em breve", prometeu o gestor, imediatamente antes de retomar uma crítica já feita por Epifânio da Franca. "Em Portugal, as pessoas têm medo de falhar. Criou-se uma cultura em que as pessoas têm de acertar à primeira e essa não é a cultura do empreendedor, porque a maior parte dos projectos falha. Há que mudar esta atitude", apelou.

A precisar de um abanão está também a forma como são encaradas as patentes. "Estas são um dos componentes do investimento e têm de ser geridas como deve ser", referiu ainda Jaime Andrez. O presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, que também defende a venda da tecnologia antes dela estar patenteada, exortou os alunos presentes a alargarem horizontes. "A inovação não tem de estar confinada à inovação tecnológica. Podemos inovar numa tabacaria. Tem é de haver um ambiente propício ao empreendedorismo, incentivos, financiamento específico e mais centros de incubação de base tecnológica. A Estratégia de Lisboa fala disso, mas desde essa afirmação até hoje não vi nada", concluiu.


Os projectos que ficaram de fora

A lista de projectos que, apesar de escolhidos para participarem na segunda fase do Concurso Nacional de Empreendedorismo, não foram contemplados com o prémio de melhor ideia, na passada terça-feira, inclui um sem-número de conceitos de negócio inovadores.

A Biodigigap aposta num sensor para monitorização de biomassa e a Prot@Tech, também no sector da biotecnologia, pretende tirar partido das ferramentas de investigação científica que desenvolveu para a produção de anticorpos e para a realização de estudos de interacções entre proteínas.

A In] [Out recorre a metodologias rápidas – e não invasivas – para fazer a análise de produtos alimentares. De análises, mas do controlo da qualidade de equipamentos de unidades radiológicas, vive o projecto da GyRad.
O tratamento de emissões gasosas é o objecto de negócio da BioHiTec. Ainda na área do ambiente, os promotores do projecto Reciclagem Plásticos pretendem fazer jus ao nome utilizando um processo químico novo em Portugal.

Inovadores são também os métodos que a Geobus (gestão informática de percursos de autocarros) e os criadores do projecto Geração de Horários (gestão de horários escolares) apresentaram a concurso.
Mais curioso é, no entanto, o projecto denominado Parque Temático, que pretende dar origem a um parque temático de lepidópteros, para a observação de borboletas e larvas.

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