Sessão pública de apresentação dos resultados e conclusões da iniciativa

No dia 28 de Novembro, a COTEC Portugal realizou uma conferência de imprensa, seguida de uma sessão pública, para divulgar os resultados e conclusões da Iniciativa sobre Incêndios Florestais que decorreu entre Março de 2004 e Outubro de 2005. O evento realizou-se no Centro Cultural de Belém e contou com a presença de Sua Excelência o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio e do Senhor Ministro de Estado da Administração Interna, Dr. António Costa.

POR CARLA LIMA

 

A abrir a sessão, o Presidente da COTEC Portugal, Dr. Murteira Nabo, alertou para o facto de o mais difícil estar ainda por fazer, ou seja, «implementar as propostas originadas por esta ou outras iniciativas, que permitam reduzir, em pouco tempo, as áreas ardidas do nosso País». Neste seguimento, o Presidente da COTEC anunciou que a consultora McKinsey se identificou com a iniciativa, tendo-se mostrado disponível para ajudar na implementação deste modelo.

O coordenador geral da iniciativa, Engenheiro Pedro Moura, do Grupo Portucel/Soporcel, foi o convidado que se seguiu e começou por referir que esta iniciativa contribuiu para a solução a curto/médio prazo de um problema que tem efeitos devastadores em toda a economia nacional. Contudo, devido à limitação de recursos e também à complexidade da cadeia do fogo, a COTEC Portugal entendeu que fazia sentido colocar as prioridades nas áreas da prevenção e da primeira intervenção, uma vez que estas podem possibilitar resultados a curto prazo.

O responsável da iniciativa referiu os exemplos da Andaluzia e da Galiza que mostram que é possível obter resultados positivos em dois ou três anos. «Estas regiões têm o mesmo tipo de solos, de florestação, de recursos e de pessoas e conseguiram, no espaço de dois anos, obter uma significativa redução de incêndios de grandes proporções e de área ardida», afirmou.

«Nesta iniciativa tentámos envolver os que têm problemas e carecem de soluções - Ministério da Agricultura, Ministério da Administração Interna, Organismos por eles tutelados, Empresas das Fileiras Florestais, Associações de Produtores Florestais - e entidades que detêm conhecimento relevante e que os podem ajudar - unidades do Sistema Científico e Tecnológico», afirmou o Engenheiro Pedro Moura.

O orador concluiu a sua intervenção explicando que a iniciativa foi estruturada em três projectos distintos. O primeiro, ‘Benchmarking de sistemas de prevenção e combate a incêndios florestais’, foi coordenado pelo Professor Daniel Bessa, da Escola de Gestão do Porto. O segundo projecto, ‘Apoio à prevenção e combate de incêndios florestais com base na cartografia do risco e da perigosidade dos incêndios e em modelos de comportamento de fogos florestais’ ficou a cargo do Engenheiro Paulo Mangana, da Critical Software e, finalmente, o terceiro projecto ‘Vigilância florestal, detecção e alerta de incêndios florestais e apoio a sistemas de combate’, teve como responsável o Engenheiro Fernando Moreira, do INOV - Inesc Inovação.

 

 

 

      

Engenheiro Pedro Moura
Coordenador geral da iniciativa

 

Benchmarking de sistemas de prevenção e combate a incêndios florestais

A sessão prosseguiu com a intervenção do Professor Daniel Bessa que explicou que, neste projecto, a sua equipa se preocupou em ver o que outros - que obtiveram bons resultados - , fizeram, nomeadamente no Chile, na Andaluzia e na Galiza. Ao nível nacional foram também analisados os resultados da AFOCELCA (um agrupamento complementar de empresas do sector da pasta e do papel, constituído para a prevenção e o apoio ao combate aos incêndios florestais), que se têm revelado bastante positivos.

O sistema de acção apresentado pelo Professor aponta para a organização de um novo sistema de prevenção e combate a incêndios florestais, com base na criação de uma cadeia de comando e um centro de comando únicos com o objectivo de receber toda a informação e coordenar todos os recursos. A primeira intervenção deve ser efectuada com base em meios humanos e materiais próprios e especializados, com destaque para as brigadas helitransportadas de sapadores bombeiros florestais e para o helicóptero. «É necessário adoptar uma filosofia de intervenção assente na rapidez e no ‘golpe único’. A primeira intervenção tem de ser certeira e têm de ser usados os meios adequados logo nos primeiros minutos do fogo», advertiu o coordenador deste projecto.

Para uma intervenção mais eficaz o orador focou também a importância do apoio a montante, que se traduz numa Rede Nacional de Postos de Vigia devidamente implementados e operacionais, sistemas de comunicação eficazes, meios de detecção mais sofisticados para apoiar a Rede de Postos de Vigia e cartas de risco de incêndio disponibilizadas em contínuo. «Apoios mais a montante...não fomos mais a montante porque excedia a nossa capacidade de intervenção», explicou o Professor.

Para concluir, o coordenador deste grupo de trabalho avançou com a ideia de que é necessário criar uma nova profissão, os sapadores bombeiros florestais. «Estes efectivos não necessitam de ter uma formação académica muito sofisticada mas, como em qualquer profissão, teriam de ser treinados e bem formados», rematou.

Apoio à prevenção e combate de incêndios florestais com base na cartografia do risco e da perigosidade dos incêndios e em modelos de comportamento de fogos florestais
A apresentação do segundo projecto ficou a cargo do Engenheiro Paulo Mangana, que começou por explicar que o projecto da sua equipa incidiu sobre a operacionalização de três instrumentos de apoio à prevenção e combate a incêndios florestais: o FIRESTATION, desenvolvido pela ADAI, que é um sistema simulador de propagação do fogo mas que, para produzir informação de qualidade, necessita de dados muito precisos e em tempo real sobre o comportamento do fogo.

O segundo instrumento consiste na cartografia de risco estrutural e conjuntural de incêndio, desenvolvida pelo Departamento de Engenharia Florestal do Instituto Superior de Agronomia. Segundo o orador, a carta de risco estrutural reflecte o histórico de correlação de área ardida com variáveis de ocupação do solo, orográficas, climatológicas e de população, o que permite fazer uma silvicultura preventiva e um ordenamento florestal adequado. Por outro lado, a carta de risco conjuntural considera o histórico de correlação de área ardida com variáveis orográficas, climatológicas e população, a par da ocupação do solo, o que possibilita o planeamento estratégico de colocação de meios de combate no terreno. O último destes instrumentos consiste na emissão diária de uma carta de risco dinâmico produzida pelo sistema PREMFIRE. Este sistema, desenvolvido pela Critical Software e o IGP, é uma metodologia avançada de cálculo de risco de incêndio, com integração de componentes estruturais e dinâmicas. Segundo o coordenador deste projecto, as aplicações do sistema PREMFIRE consistem no suporte ao planeamento diário de acções de prevenção e vigilância, no alerta de risco de incêndio e na informação operacional sobre zonas de deflagração de incêndio com maior intensidade.

A implementação e manutenção das cartas de risco estrutural e conjuntural de incêndio e dos sistemas PREMFIRE e FIRESTATION, ao nível nacional, representam um custo pouco significativo e podem dar um contributo decisivo àquelas operações. Para o sistema FIRESTATION estima-se que o custo de operacionalização do sistema se situe entre 0,025 e 0,030 €/ha de área de espaço florestal. No que respeita à produção de cartografia de risco estrutural para o território nacional continental, o custo estimado é entre 0,09 €/km2 e 0,52 €/km2, dependendo, respectivamente, da existência ou não de cartografia actualizada de áreas ardidas. O custo do sistema PRIMEFIRE foi estimado em cerca de 0,02 €/ha de área de espaço florestal.

«Para potenciar o impacto destes sistemas é absolutamente essencial envolver todas as entidades competentes». Foi com estas palavras que o Engenheiro Paulo Mangana finalizou a sua apresentação.

Vigilância florestal, detecção e alerta de incêndios florestais e apoio a sistemas de combate
A apresentar o projecto de ‘Vigilância florestal, detecção e alerta de incêndios florestais e apoio a sistemas de combate’ esteve o Engenheiro Fernando Moreira que iniciou a sua intervenção explicando que a sua equipa começou por fazer um levantamento rigoroso e sistemático da localização geográfica dos 236 postos de vigia que integram a Rede Nacional de Postos de Vigia.

Segundo o orador, os resultados estão longe de ser animadores. Foram detectados vários obstáculos visuais de natureza diversa, nomeadamente vegetação e infra-estruturas de telecomunicações, nas imediações dos postos de vigia: em 71 postos, cerca de 30 por cento RNPV, verificou-se a necessidade de intervenção a curto ou médio prazo e desses 71, 20 necessitam de intervenção urgente. Foi elaborada uma carta de visibilidades para identificação das áreas do território actualmente cobertas pela RNPV. «E, mais uma vez, os resultados deixaram muito a desejar. Os resultados mostraram que, em pelo menos 34% do território, o grau de cobertura da RNPV é baixo ou muito baixo, aliás, é de tal maneira baixo que 28 por cento do território não é coberto por nenhum posto», explicou o orador.

O Engenheiro Fernando Moreira alertou ainda para as vantagens da vigilância electrónica, uma vez que apresentam, relativamente à vigilância humana, vantagens relacionadas com a objectividade e exactidão, conduzindo a tempos de detecção mais baixos e à redução de erros na localização dos pontos de ignição dos incêndios. Os sistemas electrónicos têm ainda a vantagem de operar 24 sobre 24 horas e 365 dias por ano. O orador esclareceu ainda que os custos da vigilância electrónica são baixos quando considerados a médio e longo prazo.

O Engenheiro Fernando Moreira concluiu a sua apresentação frisando que «a actual RNPV não é a mais eficiente, por isso, seja qual for a alteração que se faça, consegue-se sempre melhorar».

 

Dr. António Costa
Ministro da Administração Interna

              

Motivações dos patrocinadores
Demonstrando o interesse das 18 instituições que patrocinaram esta iniciativa, o Engenheiro Francisco Sanchéz, Presidente da EDP, começou por explicar que, no seu caso, enquanto representante da EDP, o que o levou a apoiar esta iniciativa foram não só os muitos danos que anualmente o fogo causa à sua empresa, mas também por uma questão de responsabilidade social, aliada à ideia de deixar um mundo melhor para as gerações vindouras.

A concluir a sua intervenção, o Engenheiro Francisco Sanchéz apelou ao Ministro da Administração Interna para uma efectiva concretização das recomendações propostas pela COTEC.

As propostas do Governo
A penúltima intervenção da tarde ficou a cargo do Ministro da Administração Interna, Dr. António Costa. O Ministro felicitou a COTEC por ter levado a cabo esta iniciativa e destacou a sua importância. Para o Ministro, esta divulgação surgiu numa óptima altura, uma vez que neste momento o tema dos incêndios florestais está aberto à discussão pública, pelo que todos os contributos são bem-vindos. «O facto do Dr. Murteira Nabo ter referido que a McKinsey se disponibilizou para ajudar é muito bom e o governo só pode agradecer esse contributo», afirmou o Dr. António Costa.

 

Relativamente à proposta de criação de um grupo de bombeiros sapadores florestais, o Ministro António Costa referiu que é uma ideia positiva e que o Ministério da Agricultura já tem a seu cargo cerca de dois mil homens com essas características, que 22 concelhos já têm bombeiros profissionais, tendo anunciado ainda a criação de um grupo de intervenção de protecção e socorro preparado para a frente de combate. «Este grupo de intervenção, porque os constrangimentos orçamentais assim nos obrigaram, ficará integrado na GNR. No entanto, esta medida veio revelar-se bastante positiva, porque vai permitir usufruir das sinergias existentes, nomadamente ao nível administrativo, sem ter de aumentar os gastos», explicou.

O orador defendeu que deve haver diferenciação de funções dos efectivos. «O que tem acontecido nos nossos incêndios é que não há diferenciação nem segmentação» referiu. O Ministro afirmou também que «o que falta ao sector é uma melhor organização. Claramente, tem de existir uma unidade de comando e é, por isso, que um dos diplomas que está em discussão aponta para um sistema integrado de Operações de Protecção e Socorro», defendeu.
Segundo o Dr. António Costa, ficou claro que, já no próximo ano, a aposta no combate aos incêndios florestais vai incidir sobre a primeira intervenção que ficará a cargo dos sapadores florestais, das equipas helitransportadas e do grupo de intervenção de protecção e socorro da GNR.

A terminar a sua apresentação, o Ministro António Costa referiu ainda que «este trabalho desenvolvido pela COTEC é um notável exemplo de cidadania empresarial».

A finalizar a sessão, o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, iniciou a sua intervenção dizendo que «os incêndios florestais são um grave e complexo problema nacional».

«Os diagnósticos da situação portuguesa já foram feitos e são agora conhecidos. O momento é de acção e de mudança», referiu. O Dr. Jorge Sampaio mostrou-se também satisfeito com o facto da comunidade tecnológica e científica estarem a ser postas ao serviço de um problema grave e que atinge todos os portugueses.

A finalizar a sua intervenção, o Presidente da República apelou à participação de todos na discussão dos diplomas que foram aprovados em Conselho de Ministros e que agora se encontram em debate público.

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