António Cunha

António Cunha é Reitor da Universidade do Minho

© COTEC Portugal, 2 de Dezembro de 2011

Há quem defenda que culturalmente os portugueses são avessos ao risco e consequentemente pouco criativos e empreendedores. Concorda?
A nossa história tem momentos que permitem suportar essa tese, embora em frequente confronto com outros de um aventureirismo audacioso motivado por condições de vida muito difíceis ou por apelos religiosos. Os tempos da visão estratégica e baseada no conhecimento foram esvaziados por posicionamentos conformados, letárgicos e, muitas vezes, depressivos. Esta atitude foi consolidada pelas lógicas do Estado Novo e do seu sistema de ensino.
No entanto, os novos contextos da sociedade do conhecimento e da criatividade, bem como a envolvente socioeconómica nacional e europeia estão a provocar uma mudança comportamental em importantes sectores da nossa sociedade, principalmente nos que têm níveis educacionais mais elevados.

O apoio à valorização do conhecimento na Universidade do Minho (UMinho) faz-se por exemplo através do incentivo à criação de empresas spin-off. De que forma se promove uma cultura empreendedora na Academia?
A cadeia da valorização do conhecimento da UMinho apoia iniciativas dos seus discentes, docentes e de investigadores. Está baseada num pipeline que inclui a promoção do empreendedorismo, a gestão da propriedade intelectual, a incubação e a instalação industrial, envolvendo a TecMinho, a SpinPark e o AvePark. O trabalho desenvolvido por estas estruturas é complementado e articulado com iniciativas extra-curriculares no âmbito dos diferentes ciclos de estudos, muito especialmente nos domínios das tecnologias e das ciências empresariais.
Neste contexto, é muito importante assinalar a agenda da Associação Académica, cujo Gabinete Lift-Off tem relevante trabalho de divulgação de cultura e práticas empreendedoras junto da comunidade estudantil, sobretudo nos alunos de primeiro ciclo e de mestrado integrado.

Na sua opinião, quais são os principais obstáculos ao empreendedorismo?
Apesar de uma evolução positiva, subsistem obstáculos estruturais e culturais.
Os nossos ecossistemas de inovação são débeis e carecem do envolvimento efectivo de investidores. Nas realidades de referência norte-americanas, os investidores, muitas vezes ex-investigadores ou professores, estão totalmente integrados em comunidades académicas.
A mudança cultural neste domínio terá de ser profunda. O empreendedorismo já faz parte do léxico das academias, mas tem de estar mais presente no seu quotidiano. Será necessário garantir que esta mudança se faça a partir do ensino secundário, nomeadamente com um maior reconhecimento da figura do empresário.
No discurso protocolar da recente cerimónia de concessão do grau de Doutor Honoris Causa pela UMinho ao Comendador Marcel de Botton, o Professor Carlos Bernardo apelidou os empresários de “Heróis de Portugal”. Seria bom que esta ideia fosse disseminada e apreendida na sociedade.

A UMinho assume as parcerias com empresas como elemento crucial para a promoção da inovação. Esta visão colaborativa tem dado frutos?
Essas parcerias são de extrema relevância para a Universidade, por três ordens de razão.
A interacção com o tecido económico-produtivo está explicitada nos objectivos estatutários da Universidade, no contexto de uma missão que procura contribuir para o desenvolvimento e bem-estar da sociedade.
Essa interacção é muito importante como forma de co-financiamento da Instituição e como mecanismo de actualização tecnológica e de conhecimento de realidades económicas e sociais que possam ser investigadas e ensinadas na Universidade, embora seja expectável que a sua expressão seja diferente nas várias Escolas.
Para além de tudo isto, esse envolvimento, desejavelmente imbuído de uma cumplicidade saudável, é fundamental para a consolidação da mudança cultural que estamos a protagonizar.

O que pensa que tem de ser feito para aumentar o grau de cooperação entre o sector público e o sector privado empresarial no nosso País?
A ligação entre a Universidade e o tecido produtivo será efectiva quando se desenvolver de uma forma natural. Para isso é preciso que haja um grande número de atores que se movimentem facilmente entre os dois sectores.
Diversos países têm utilizado de uma forma hábil e consequente políticas de compras públicas, incluindo as relativas a equipamento militar. Portugal não tido sucesso neste domínio e as suas práticas têm estado reféns de estratégias de grandes grupos económicos internacionais em detrimento dos interesses de empresas nacionais.
Importa garantir que os grandes investimentos nacionais são oportunidades de desenvolvimento dos nossos tecidos produtivo e de inovação.
Infelizmente, o cumprimento destes dois objectivos tem vindo a ser limitado, ou mesmo inibido, por quadros legislativos e burocráticos complexos, a respeito do legítimo e necessário combate à corrupção.

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