Emídio Gomes

Emídio Gomes é Pró-reitor para as Relações Empresariais da Universidade do Porto e Presidente da Direcção da PortusPark, rede de parques de Ciência e Tecnologia & Incubadoras

© COTEC Portugal, 3 de Outubro de 2011

A capacidade competitiva das empresas e dos países está intimamente ligada à inovação. O que pensa da inovação feita em Portugal?
A inovação em Portugal tem sofrido muito com a incapacidade de implementação de políticas públicas efectivas de estímulo ao I+D+i orientadas pelo lado da procura, ou seja das empresas. Até hoje assiste-se a uma divisão entre a política de apoio ao desenvolvimento da Ciência, com sucesso visível e mensurável e, em paralelo, a sistemas de apoios à inovação regulados de forma difusa, desconexa e sem critério, entre várias entidades com ligação directa, ou indirecta, ao Ministério da Economia. A consequência deste modelo paralelo, sem interligação com a Ciência e sem objectivos estratégicos, é visível no relatório de Fevereiro de 2011 do Innovation Union Scoreboard 2010. Portugal passa de 20.º para 15.º lugar no ranking global dos 27 países da UE, o que foi motivo de satisfação óbvia e alvo de forte divulgação pública aquando da saída dos resultados. Mas quando analisamos as razões desse “sucesso” verificamos que tudo se deveu ao esforço de investimento público do lado da oferta (n.º de novos doutorados, n.º de papers, etc.). Quando se mede o impacto económico deste esforço, expresso na página 14 do referido relatório, estamos em 23.º lugar atrás da Roménia!
O que acabo de referir não invalida a existência de um leque absolutamente excepcional de empresas nacionais que, per si, desenvolveram uma capacidade própria de inovação absolutamente notável e ao nível das melhores práticas mundiais no sector em que operam. Mas são ainda poucas para permitir um valor médio aceitável.

Como tem evoluído a cooperação Universidade - Indústria em Portugal?
A cooperação Universidade - Indústria tem evoluído de forma consistente e positiva, com casos concretos de sucesso, mas ainda com um forte desequilíbrio nessa relação. O sistema de ensino superior é disperso, com uma enorme variação na sua qualidade, em especial na rede politécnica. Mesmo nas universidades, a capacidade de cooperação com a indústria está praticamente concentrada no eixo litoral Minho - Lisboa. A dispersão de recursos é óbvia e traduz-se numa fraca capacidade de cooperação global. Muitas vezes a cooperação não se faz, não por falta de vontade, mas apenas e só por incapacidade.

O que pode e deve ser feito para fortalecer essa ligação?
O País tem de ter uma política de estímulo a essa cooperação, alicerçada em princípios simples e objectivos. Devemos colocar a empresa no centro do sistema de inovação, enquanto entidade capaz de captar o estímulo da inovação e de o transformar em benefício social, sendo que esta mudança é decisiva para inverter uma política pública até hoje muito centrada no estímulo ao lado da oferta. É importante criar incentivos ao desenvolvimento de redes de inovação entre empresas e universidades. Temos de ter uma estrutura profissional que melhore urgentemente a participação de consórcios universidade - indústria em projectos da EU, como a forma mais eficaz de alargar o potencial de “radar” do tecido produtivo nacional.

Portugal é um país onde o nível de Empreendedorismo qualificado é baixo. Como se pode contrariar esta tendência?
Promovendo uma mudança de atitude a partir das gerações mais novas. Há hoje modelos perfeitamente testados que conduzem a resultados muito positivos nesta matéria. Não inventar, ser consistente e persistente, tendo paciência e perseverança na obtenção de resultados.

E as novas gerações são mais empreendedoras? Inovam mais?
A tendência é para todos termos a ideia que de facto isso acontece, em especial quando verificamos o aparecimento de uma grande quantidade de iniciativas empresariais lideradas por jovens. Mas uma apreciação rigorosa só será possível através da medição da criação de valor destas iniciativas, o que requer algum tempo. Preocupa-me verificar uma tendência para o potencial de confusão entre a obtenção de incentivos QREN (no fundo, despesa pública) e a criação de valor. É muito importante ser rigoroso e exigente. Se facilitarmos agora tudo será mais difícil de corrigir no futuro. Temos que saber ajudar, mas em simultâneo ser exigentes na formação de uma nova classe empresarial.

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