Guy Villax

Guy Villax é membro do Conselho de Administração e CEO da Hovione.

Guy Villax

© COTEC Portugal, 3 de Janeiro de 2011

Inovar é cada vez mais uma questão de sobrevivência. Que ferramentas considera serem necessárias para impulsionar a inovação?
O puzzle que produz inovação é complexo. Algumas peças desse puzzle são formais: política de inovação, estratégias de inovação, orçamentação e seguimento dos projectos de I&D com análise de desvio (em 2010 foram 261), escada de carreira científica... Na Hovione todos os sistemas de gestão promovem a inovação – recrutamento, definição de objectivos, avaliação do desempenho, distribuição de lucros, comunicação dos valores da empresa...
Vários sistemas recolhem ideias e sugestões em todas as áreas e a todos os níveis hierárquicos. As ideias são acarinhadas, avaliadas, as melhores são dotadas de orçamento para serem tornadas realidade. Os seus autores são festejados com troféus trimestrais e anualmente os melhores dos melhores e os autores de patentes recebem prémios monetários.
Mas o momento do “eureka” não aceita formalismo, por isso a Hovione procura criar o máximo de oportunidades para que o acaso seja mais fértil.
As melhores ideias nascem no interface – quer seja de 2 ou 3 disciplinas científicas quer seja entre os que têm um problema e não têm solução, e aqueles que sabem resolver, mas ainda desconhecem o desafio. É impossível prever quais as disciplinas, ou quais as pessoas que se devem juntar para resolver – aqui quem manda é o acaso.
Os nossos science days mensais juntam os cientistas de Loures, New Jersey e Shanghai para abordar problemas complexos e permite a partilha de ideias. Os project meetings bissemanais juntam os cientistas de vários projectos para trocar informação sobre dificuldades, obstáculos e pistas a explorar.
Mas nunca vai ser dentro da nossa empresa, ou na praia da Caparica, que vamos conhecer o que há para resolver, o que de novo outros procuram, por onde vai o state of the art, ou quais são as best practices – para isso há que sair da nossa empresa, da aldeia, do país, do continente.
Há que manter, promover, fazer crescer a rede de conhecimentos, promover trocas, renovar amizades – ir ver com os olhos, ouvir com as mãos. Daí que o orçamento em viagens e em formação tem de ser importante, e tem de ser dividido inteligentemente. Na Hovione acreditamos na igualdade das oportunidades, mas premiamos o mérito e os resultados. Muitas firmas mandam os seniores falar às conferências internacionais, a Hovione manda os mais novos. Anualmente convidamos clientes e concorrente a virem dizer-nos o que temos de melhorar.

Quais são, no seu entender, os maiores desafios para os departamentos de IDI das empresas nacionais?
Capacidade de gestão e sorte. Quaisquer que sejam as empresas – todas enfrentam desafios de gestão. Assim, para além da problemática da inovação propriamente dita (gerar ideias, avaliá-las, apostar em algumas, etc.), há que gerir o processo de interface com o mercado: temos de ter especialistas para actuar nos elos de uma longa cadeia e temos de ter gestores de topo com visão, mas também sensibilidade e experiência do detalhe. Gerir cientistas é muito mais complexo que gerir engenheiros de produção. É preciso génio inventivo sem dúvida, mas sobretudo muito trabalho com bom método, mas sem sorte... nada feito.

De acordo com os resultados do IPCTN09, a despesa total em I&D cresceu 10% relativamente ao ano anterior, representando 1,71% do PIB nacional. Como avalia esta evolução?
Portugal tem tido um desempenho notável no aumento das suas actividades científicas, sobretudo no sector privado. Deve-se sem dúvida à continuidade das políticas seguidas. Tem sido das áreas de melhor gestão governativa – tomaram-se opções e depois manteve-se o rumo durante duas décadas.
Estamos de parabéns. Mas os números não são tudo – há que olhar à qualidade dessa despesa, à fome dos investigadores, à paixão dos gestores, à visão de quem lidera.

Tradicionalmente a inovação tem sido vista como algo interno à empresa, mas cada vez mais se fala de um carácter colaborativo. A colaboração faz parte da política de inovação da Hovione?
A colaboração é hoje mais facilitada por novos patamares de mobilidade e comunicação, mas acreditar que a colaboração substituiu a concorrência é uma ilusão. Actuamos num mercado global, muito competitivo e que não perdoa. Há que ter os olhos abertos para ver as complementaridades, as hipóteses de parceria, as transversalidades – mas não se pode baixar a guarda.
A colaboração externa e as ligações às universidades são chave – e sempre foram. Se a Hovione foi fundada em Portugal foi porque o meu Avô, natural da Hungria e cientista no campo da genética, quando estava num campo de refugiados em Salzburgo em 1948,recebeu do Professor Vitória Pires, que tinha conhecido em conferências científicas internacionais, um convite para vir trabalhar em Portugal.

A Hovione exporta a grande maioria dos seus produtos. A inovação é um factor crítico para o sucesso no mercado externo?
Na Hovione a inovação não é somente um factor crítico de sucesso, mas também não é um acrescento que o Conselho de Administração um dia se lembrou que seria um investimento rentável – como quando decide instalar o SAP ou investir em marketing ou comunicação. A Inovação tem de estar no ADN da organização e ser a peça basilar da sua estratégia. Dito isto, o negócio depois é gerido como qualquer um, tem os seus problemas, usa as suas fraquezas e forças para lidar com oportunidades e ameaças.

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