José Cardoso de Menezes

José Cardoso de Menezes é Professor na Universidade Técnica de Lisboa (IST), onde coordena um laboratório de Engenharia de Sistemas no Centro de Engenharia Química e Biológica (BioSystem Engineering Lab). Trabalha há vários anos em IDT com empresas de vários tipos em Portugal e no estrangeiro.

José Cardoso de Menezes

© COTEC Portugal, 1 de Fevereiro de 2011

A inovação é tida como um factor decisivo na competitividade da economia portuguesa. Temos, na sua opinião, o conhecimento, a tecnologia e os recursos para fazer a mudança de paradigma que a sociedade e as empresas necessitam?
Temos acesso quase ilimitado ao conhecimento científico a nível global e a um grande número de tecnologias e recursos para o fazer progredir, sobretudo pelas participações internacionais que temos e por alguns centros de excelência bem equipados que já possuímos em Portugal. Não temos – faz-nos imensa falta e é um dos factores limitadores mais importantes – a base de experiência de como operacionalizar devidamente toda essa ciência, em inovação tecnológica capaz de dinamizar alguns sectores da nossa economia e de fazer surgir novos sectores.

Como tem evoluído a cooperação entre as empresas e as instituições de ensino superior?
O modelo de gabinetes de transferência de tecnologia criados há quase uma década na maioria das universidades, produziu menos resultados do que seria de esperar. A inexistência de uma cultura de IDT orientada para a valorização externa não académica dos resultados, só começou a massificar-se recentemente juntos dos investigadores universitários. Diversas Universidades em Portugal começaram a apoiar de forma mais positiva a criação de spin-offs.
Os códigos de PI (propriedade intelectual) que há uns anos eram ou inexistentes ou não defendiam a parte pertencente aos investigadores e universidades, passaram a inviabilizar sequer uma reunião com qualquer empresa idónea, que em consórcio queira fazer investigação pré-competitiva.
Já não é verdade que a indústria nacional não tenha a sofisticação necessária para tirar partido da IDT realizada nas Universidades Portuguesas. As Universidades também evoluíram na criação de novos e melhores cursos com futuro, mas alguns sem um histórico significativo no tecido industrial em Portugal. Com o tempo uma coisa e outra voltarão a ajustar-se, mas a solução actualmente passa pelos licenciados desses cursos emigrarem à procura de empregos fora de Portugal – e fazem-no com enorme sucesso – ou fazerem o seu próprio emprego.

Que condições são necessárias para o fortalecimento dessas ligações?
Sou céptico em acreditar que será pelo fortalecimento das relações entre Universidades e empresas em Portugal que umas e outras evoluirão no sentido desejável, visto que nem umas nem outras têm tudo o que é preciso para mudar o modelo actual de relacionamento. Seria mais importante pensar que as empresas em Portugal procuram em todo o mundo as melhores Universidades para as apoiarem no seu esforço de inovação, e o mesmo com as Universidades Portuguesas em relação a empresas para a comercialização da sua IDT – sendo neste caso indispensável um enorme esforço de reciclagem das Universidades Portuguesas a todos os níveis e de todos os intervenientes.

O que é que, em Portugal, se pode fazer para travar a “fuga de cérebros”?
Os cérebros não fogem. As pessoas sim! As pessoas procuram melhores condições de vida, familiares e profissionais. Assim, um país moderno, com maior transparência no modo de funcionamento das suas instituições, mais oportunidades, melhor equipado para competir a nível mundial, oferecerá melhores condições e maior número de oportunidades aos seus concidadãos.

Que avanços vê surgir na próxima década no âmbito da biotecnologia/bioengenharia?
As maiores oportunidades em biotecnologia e bioengenharia encontram-se nas áreas fronteira da medicina regenerativa (p.ex., utilizando células estaminais), da medicina personalizada (p.ex., diagnóstico e terapia dirigidas a grupos e populações), das biociências e nanotecnologias associadas às áreas da saúde humana nas suas múltiplas vertentes, da exploração sustentável do nosso planeta em especial do mar, das áreas energéticas para as quais a bioengenharia oferece já soluções e permite vislumbrar novos produtos e processos (p.ex., biocombustíveis). O potencial de comercialização de algumas destas tecnologias é muito significativo, embora noutros casos os investimentos e o tempo para levar ao mercado produtos tornem impossível o modelo clássico seguido noutras áreas em Portugal de uma empresa apenas, fazer tudo sozinha. A biotecnologia e a bioengenharia são apostas de longo prazo. São diferentes de outras áreas tecnológicas onde se pode pretender em poucos anos definir uma solução e procurar obter a sua comercialização.
A seriedade, constância e profissionalismo com que forem feitas essas iniciativas, terá com certeza um impacto muito significativo na economia e nas oportunidades para as gerações futuras durante décadas no nosso País.

 

(As opiniões aqui expressas são pessoais e não veiculam a posição do IST nem de qualquer outro organismo ao qual o entrevistado possa estar associado.)

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