Orfeu Flores

Orfeu Flores é CEO da STAB VIDA.

© COTEC Portugal, 1 de Abril de 2011

Quais considera serem os maiores desafios relacionados com a inovação com que as PME se deparam hoje em dia?
Na minha opinião, toda a inovação enfrenta dois problemas principais:

  • esforço total necessário para “vender” uma inovação, seja ao consumidor final (B2C), seja a uma empresa maior (B2B). Este esforço é enorme, custa muito dinheiro e é um custo por adiantamento – e representa mais uma carga para a tesouraria da PME (ex. marketing, licenciamento, validação, e muitos custos mais específicos de cada projecto). 
  • risco de imitação e de perder a famosa first movers advantage. Vivemos numa sociedade global onde aparecem, por dia, muitas inovações… e novas imitações das inovações do dia anterior. As patentes tanto servem para proteger como para dar indicações para imitar ou adaptar. Qualquer empresa tem concorrentes. E eles estão sempre muito atentos.

Ter uma nova tecnologia em mãos, ou receber uma tecnologia quase pronta de uma universidade, não significa (ainda) a galinha dos ovos de ouro, ao contrário do que os inventores sempre acham. É preciso músculo para que uma inovação se imponha no mercado.

Que futuro está reservado às PME nacionais? Em que é que a inovação e a I&D podem influenciar esse futuro?
O futuro das PME nacionais é apostarem no seu melhor produto e serviço (inovador em alguma coisa!!) e conquistarem clientes no estrangeiro. É perceberem que têm de cortar amarras com subsídios e benefícios nacionais, e lançarem-se para fora. Não é preciso abrir um escritório na Alemanha; basta criar um anúncio no Google em alemão que se visualize apenas em Munique, por exemplo, e criar um número de telefone alemão no Skype. É o mesmo que estar lá. O resto são emails e contratação de companhias de transporte. Logo a seguir vêm pedidos diferentes de novos clientes que são óptimas ideias para... inovar. E por aí sucessivamente. Crescer com e para o mercado significa estar de porta aberta para ele desde as 8 da manhã às 8 da noite. Não vale a pena passar um ano fechado em laboratório para descobrir a fórmula.

No caso concreto da biotecnologia, de que maneira é que a indústria difere hoje de há uma década atrás, quando a STAB Vida foi criada?
A biotecnologia é uma onda que se propaga de Oeste para Leste. Começou em S. Francisco (EUA) com muita intensidade e muito dinheiro, e viajou para leste: Nova Iorque, Europa (onde se semeou fortemente no Reino Unido e na Escandinávia) e chegou à Coreia e a Singapura. Quando cá passou deixou pelo menos 5 a 10 empresas a funcionar. O maior competidor da STAB VIDA em Portugal (e menos na Espanha) é Coreano. Além do mais, hoje trabalhamos em cima de marcos científicos recentes (e onde vamos buscar grande parte do que precisamos para inovar nos nossos serviços aos clientes), como, por exemplo, a sequenciação total do genoma humano. Hoje a biotecnologia é mais ampla e ainda mais divertida que antes.

Com aplicações nos sectores da saúde, agricultura e transformação industrial, em que medida é que a biotecnologia está presente nas prateleiras dos supermercados portugueses?
Começamos pela cerveja: produto fermentativo, 100% biotecnologia industrial. Os novos iogurtes com “bifidus” activos não são mais que as famosas functional foods onde a biotecnologia está a apostar em força. O álcool como substituto da gasolina também é biotecnologia. O congelamento do cordão umbilical do bebé quando nasce, para possível uso em doenças genéticas da criança... O kit de recolha de saliva para determinação, em 72h e por 48€, se o consumidor é intolerante à lactose. A escolha pelo oncologista da melhor terapia aplicada a um paciente com cancro. Tudo isto são exemplos de biotecnologia livremente comercializada. Muito mais está na calha para entrar no mercado.

Na sua perspectiva, qual será, no âmbito da biomedicina, o maior salto evolutivo a que assistiremos da próxima década?
O diagnóstico de doenças está cada vez melhor e leva grande avanço sobre a terapia. Descobrir a causa de uma doença hoje é 100 vezes mais rápido e fiável que há 20 anos atrás. Infelizmente, a terapia não é tão eficiente ainda. Quando as causas da doença são internas (genes defeituosos, sistema imunitário deprimido, cancros, Alzheimer...) a terapia ainda responde muito mal! Acredito que a terapia ganhará muito com os novos anticorpos em teste e até com as novas descobertas de pequenos ADN terapêuticos. Não acredito tanto em células estaminais... tenho medo dos tumores incontroláveis que possam vir mais tarde a causar. Mas acredito mesmo é que a barreira médico/doente se vai esbater. O doente saberá cada vez mais de medicina, terapêutica em geral e do seu diagnóstico em particular. A medicina personalizada, em que cada novo medicamento será doseado diferentemente para cada indivíduo, vai ser uma realidade incontornável, e vai ser imposta pelo doente, contra a inércia dos médicos e das farmacêuticas.

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