Rui Reis

Rui L. Reis é Director do Grupo de Investigação 3B's e do Laboratório Associado ICVS/3B´s da Universidade do Minho. É ainda CEO do Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa e Presidente e CSO da empresa Stemmatters

© COTEC Portugal, 2 de Novembro de 2011

Em Portugal investe-se o suficiente em I&D? O que pode ser feito para melhorar a situação?
Investe-se muito pouco. Basta analisar as percentagens do PIB e o muito baixo peso real (não de engenharia financeira ou fiscal) do sector privado. Mas olhando para como a Ciência portuguesa avançou e se tornou realmente competitiva em termos internacionais nos últimos anos só podemos elogiar o que o anterior Ministro Mariano Gago foi capaz de fazer.
Quando vejo agora cortes na Ciência, que baixarão o financiamento competitivo e tornarão ainda mais precária a situação dos recursos humanos de enorme qualidade que conseguimos formar e atrair para as nossas melhores unidades de investigação, fico horrorizado. Como será possível construir uma economia no futuro se não investirmos realmente num País de conhecimento e inovação?
Com cortes há que fazer o que nunca fizemos nesta área. Sempre houve uma grande tendência de satisfazer o maior número de pessoas possível. Nunca houve coragem de definir prioridades e as próprias pessoas não acreditam que fossem capazes de escolher as áreas certas. Custa-me entender como é que Portugal tem uma política de prioridades na Europa e cá abre sempre projectos em todas as áreas.

Na sua opinião, Portugal é um país inovador? Em que sectores de actividade deveríamos apostar para liderar nesta área?
Portugal não é, nunca foi e, no caminho que vamos, dificilmente será alguma vez um país inovador. O Português com conhecimentos tem muito medo do risco. Quanto mais sabemos de um assunto menos arriscamos, o que para as empresas de alta componente tecnológica de que tanto precisamos é um problema! A nossa genética não é meritocrática e não entendemos que muitas vezes um grande sucesso resulta de alguns falhanços anteriores. Toda a gente quer investimentos “garantidos” em vez de arriscar em projectos com algum risco mas muito maior potencial. Devíamos certamente apostar nas áreas em que somos melhores em termos científicos e onde somos competitivos em termos internacionais, o que é muito fácil de medir. Qualquer base de dados responde muito bem a esta pergunta. Mas quem quer realmente saber a resposta?

Para além da sua intensa actividade académica e de investigação, é também Presidente da Stemmatters, Biotecnologia e Medicina Regenerativa. Foi difícil passar de investigador a empreendedor?
Não foi nada difícil porque de facto não passei de cientista, que continua a ser o modo como me defino, a empreendedor. Sempre fui um cientista aplicado que tento desenvolver investigação de qualidade que possa ser publicada nas melhores revistas, mas que antes possa ser protegida e patenteada. Sempre quis ser reconhecido como cientista, mas também criar valor e, ter um impacto a médio prazo na qualidade de vida das pessoas. Na área da medicina regenerativa e das células estaminais, dado o nível de conhecimento necessário para desenvolver actividades empresariais, se os investigadores não se envolverem directamente nos planos de negócios, na criação de empresas e na sua direcção e estrutura accionistas nada nunca passará dos laboratórios à prática clínica…

Que conselhos daria a quem quiser seguir esse caminho?
Muito trabalho, estratégia e ambição. Ser capaz de arriscar, o que nunca é fácil para cientistas de renome. É muitas vezes difícil investir recursos financeiros, mas é particularmente difícil arriscar uma credibilidade científica internacional construída durante muitos anos num projecto empresarial, que por mais sólido que seja tem sempre riscos. Muitos cientistas preferem a situação confortável de serem respeitados na sua área a arriscarem falhar. Numa comparação simplista é como um grande jogador de futebol, que teve um sucesso único como tal, iniciar tudo de novo como treinador. Ciência só nos laboratórios não chega e, nas áreas de grande componente tecnológica, se os próprios cientistas não avançarem e arriscarem não poderão existir empresas de sucesso.

Na sua área – engenharia de tecidos, medicina regenerativa, biomateriais e células estaminais –, que avanços marcantes têm sido feitos? E no futuro, qual será o maior salto evolutivo a que assistiremos?
Na minha opinião vivemos actualmente a terceira revolução tecnológica. Uma revolução que vai ter grande impacto na medicina e na prestação de cuidados de saúde e que se baseia na biotecnologia, em particular na medicina regenerativa e nas células estaminais.
Já imaginou que poderá vir a ser possível fazer em humanos o que, por exemplo, animais como as Salamandras fazem, capazes de regenerar um membro ou uma cauda cortada de forma automática? Estamos a avançar nesse sentido: ao entendermos melhor os mecanismos de regeneração e sermos capazes de “programar” as nossas próprias células para induzir esse tipo de mecanismos seremos capazes de fazer coisas incríveis já na próxima década.
Hoje já começa a ser possível regenerar tecidos como osso e cartilagem. Há já ensaios clínicos e experiências industriais a serem feitas. Não é ainda possível regenerar um membro inteiro, mas esse é o futuro em que muitos, incluindo eu próprio, acreditam.
Não me custa imaginar, num espaço de 10 a 15 anos, um Mundo onde podemos guardar as nossas células enquanto somos saudáveis para as usarmos na cura de problemas futuros. Transplantes de órgãos produzidos em laboratório, com as nossas próprias células, feitos por medida e no momento necessário! Transplantes para melhorar a qualidade de vida e não só para salvar vidas. Respostas em tempo útil em situações de emergência. Alternativas de tratamento em vez de soluções únicas. Uma verdadeira revolução na medicina.
O que falta? Mais algum tempo de investigação, ainda mais interdisciplinaridade e financiamentos, e mais actividade industrial com forte investimento das big-pharma que permita os ensaios clínicos, e alguns sucessos em grande escala que criem o “efeito bola de neve”. E o mais interessante é que nesta área se as coisas correrem bem Portugal até pode ter um papel importante.

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